Por Adriana Del Ré

Mariana Aydar tem uma estreita relação com o forró de uma vida inteira. Veio da infância; passou depois pelo início da carreira, à frente da primeira banda, a Caruá; dilui-se em meio a outros ritmos dos quais Mariana se aproximou em sua trajetória solo; fortaleceu-se com o documentário Dominguinhos, do qual é uma das diretoras; e amadurece agora com o projeto Veia Nordestina, contemplado pelo edital 2018 da Natura Musical e que será composto por 4 EPs, lançados ao longo deste ano, e também um minidocumentário, com 4 episódios, que será exibido no YouTube. 

As faixas dos 3 primeiros EPs se unirão às canções do 4º formando ali um disco cheio. O Veia Nordestina I, contendo 3 faixas – Veia Nordestina, Se Pendura e Forró do ET – foi o primeiro a chegar às plataformas de streaming, em abril. Nesta sexta, 7, é a vez de Veia Nordestina II, com São João do Carneirinho, Represa e Xilique. O próximo EP será lançado em julho e o último, em outubro, todos com produção de Marcio Arantes. O que os une, além da sonoridade, são os temas, conta Mariana.

“Para o primeiro EP, pensei numa coisa mais carnaval, Bahia, porque o disco vai ser feliz, solar. Talvez o meu disco mais solar. Tem o lamento, mas a otimismo junto”, diz a cantora e compositora paulistana, ao Estado. “Então, ali, eu já quis mostrar um pouco do que ia ser a obra inteira, o clima do disco, e a sonoridade também que vai permeá-lo, com essa coisa de experimentar, outros elementos dentro do forró. Aí o primeiro é mais carnaval, o segundo vai ter uma cara de São João, porque a gente lança em junho.” 

Assim, no projeto, Mariana é reverencial ao forró em sua essência, mas estabelece diálogos interessantes com outros ritmos. Em Veia Nordestina I, por exemplo, a dançante Se Pendura (Duani) faz uma deliciosa mistura de xote com referências carnavalescas, enquanto Forró do ET (de autoria de Mariana) remete ao universo forró-frevo de Elba Ramalho, com a participação especial da própria cantora paraibana. Já Veia Nordestina II está imerso na atmosfera das festas juninas, com uma sonoridade mais tradicional, forrozeira – e canções que convidam a dançar a dois. São João do Carneirinho, composta pela pernambucana Isabela Moraes, traz a sanfona festiva de Mestrinho Isabela assina também Represa, e Xilique vem da parceria de Mariana e do pernambucano Jorge de Altinho. 

Esse projeto dedicado ao forró já estava no radar de Mariana Aydar há tempos, mas foi adiado quando ela se apaixonou pelas canções do artista plástico Nuno Ramos. Dessa paixão, nasceram show e também disco, Pedaço Duma Asa, lançado em 2015. Depois que aquele trabalho chegou ao fim, a cantora conta que voltou a fazer shows, com um power trio, formado por guitarra, bateria e baixo. “A gente ficou fazendo esses shows meio híbridos, com tudo que eu já tinha feito de todos os meus discos, mais as coisas do Nuno, mas, para mim, não estava colando.” A cantora pediu um tempo para sua banda. Precisava experimentar outros caminhos. “Um dia, me chamaram para o São João em junho. O pessoal do forró sempre soube que eu era do forró, sempre me chamaram para cantar, para dar canja, mas, daquela vez, eles me chamaram para fazer um show.”

Mariana uniu-se então a dois jovens músicos, Cosme Vieira e Feeh Silva: o primeiro na sanfona, o segundo na zabumba e ela no triângulo. “Senti uma parada no palco, fazendo forró pé de serra com aqueles meninos, que pareciam dois velhos de 200 anos de forró, algo que eu não sentia há muito tempo. Senti que esse lugar é tão meu. Disse: ‘Por que eu não exercito, não faço mais forro?’. Nunca deixei de dançar forró. Para mim, dançar forró é muito forte”, lembra. “Depois daquele dia, tudo foi se encaixando: eu queria fazer esse disco de forró antes do disco do Nuno; estou feliz aqui; estou sem banda; achei um caminho e fui. Como se eu me reencontrasse.”

Para Veia Nordestina, a cantora decidiu reunir a antiga banda com os novos músicos, para estabelecer essa ponte entre o forró e outros ritmos, e imprimir sua própria identidade sonora. “É uma história de poliamor. O disco vem dessas experiências de misturar tudo, dessa vontade de subverter um pouco.” 

O projeto de Mariana lançado dessa forma, por partes, é mais uma demonstração de que, na cena musical dos novos tempos, a regra é justamente não ter regra para se colocar um novo trabalho na praça. Há quem lance singles, EPs, discos completos. 

“Comecei a conversar com pessoas, e tinham alguns lançamentos, principalmente gringos, de EPs. Eu também já tinha lançado alguns singles”, diz. “Vi a força desse novo formato, mas eu queria realmente fazer um disco. Eu queria fazer trabalho de forró, mas me apaixonei pelas canções do Nuno, larguei tudo. Quando o resgatei, eu já estava compondo desde que minha filha nasceu, há 5 anos. E aí já vinha compondo bastante nessa pegada mais nordestina.” 

A turnê de Veia Nordestina só estreia no dia 26 de julho, na Casa Natura, em São Paulo, mas Mariana já entra no clima no Arraiá do Forrozin: ela e a banda do bloco Forrozin se apresentam no domingo, 9, a partir das 16h, no ABolha Rooftop, em São Paulo.

MARIANA AYDAR

Arraiá do Forrozin. ABolha Rooftop.

R. Professor Cesare Lombroso, 161, Bom Retiro. 

Dia 9/6, das 16h às 23h59. 

Ingressos a partir de R$ 30.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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