Memórias rodoviárias

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Em minha carreira de policial rodoviário, atendi à centenas de acidentes e, por mais que tente, não consigo me desvenci­lhar de algumas cenas gravadas na gaveta da minha memória, pois sinto profunda tristeza dado gravidade do fato, princi­palmente quando envolvia crianças. Sempre que deparava com acidentes assim, sentia algo que não sei explicar, meu pensamento voava para meu lar, onde estavam meus filhos ainda pequenos. Se percebesse que havia ainda um fiozinho de esperança de poder salvá-las, tudo tentava, muitas vezes com os olhos derramando lágrimas como uma cachoeira.

Lembro-me de uma colisão traseira no quilômetro 249 da Via Anhanguera, pista capital-interior. Pra quem conhece a região, este quilômetro fica assim que se acaba de subir a Serra de Santa Rita do Passa Quatro. Era madrugada, eu tra­balhava na base rodoviária que ficava um quilômetro adiante, estava muito calor e meu parceiro, o saudoso Soeira, no meio da pista batendo papo pois aquela hora e naquela época o movimento de veículos era quase que zero.

De repente, chega um Opala com motorista buzinando apavorado dizendo que um menino estava preso nas ferra­gens. Voei pra lá e vi que o acidente acontecera mais abaixo e os caminhões ficaram enroscados. O da frente transportava latas de tinta e, com o atrito, estava pegando fogo nas cordas e na lona que o cobria. O desespero era total, pois o fogo pode­ria causar explosões e estragos inimagináveis.

O motorista acabou de subir a serra e conseguiu que os caminhões se soltassem num gramado além do acostamento. Foi uma loucura, cheguei a tempo de ajudar a apagar o fogo e corri para o segundo caminhão. A cena que vi me cortou o coração: um menino de uns dez, onze anos preso nas ferra­gens, a água fervente do radiador havia caído sobre seu corpo e pernas – não sabia ainda como estavam suas pernas.

O pai do garoto nada sofreu, mas vendo seu filho naquela situação, andava de um lado para outro desesperado, pensan­do em uma maneira de tirar seu rebento dali. Meu parceiro Soeira já havia solicitado uma ambulância, mas precisávamos improvisar uma maneira de puxar a lataria e tirar o menino das ferragens, um herói resistindo a tudo.

Por mais incrível que possa parecer, ele estava consciente e conversava comigo, enquanto eu fazia de tudo pra lhe passar coragem. Ele disse que morava em Londrina, no Paraná, e sua escola estava em greve, seu pai o chamou para esta viagem e ele, todo feliz, aproveitou para passear.

Naquela época não havia os recursos de hoje, era tudo na raça. Em situações assim, o caminhoneiro era nosso grande aliado. Consegui um caminhão com cabo de aço e, com o maior cuidado, fomos puxando a lataria, o valente menino gemia de dor, mas naquela situação ele sabia que queríamos salvá-lo. O pai, do meu lado, tremia muito. A ambulância com a maca esperando…

Quando as ferragens foram afastadas, subi no estribo e com muito cuidado peguei o menino nos braços, suas pernas estavam esmagadas abaixo do joelho, imagine como fiquei. Disse ao pai pra acompanhar o filho, que arrastaria seu caminhão até a base, de onde avisaríamos sua empresa. O garoto veio para o Hospital das Clinicas Emergência. Quando saí do serviço, passei pelo HC e fiquei sabendo que ele iria passar por cirurgia.

Nesta época, eu cantava no Degraus, uma choperia ali na avenida Treze de Maio, e aos domingos fazia uma roda de samba que sempre lotava. Entre os clientes estavam dois médicos residentes. Eles sabiam que eu era guarda rodoviário e vieram me contar que, dois dias antes, participaram da ci­rurgia de um garoto de Londrina, foi muito difícil, pois havia queimaduras e fraturas. Quis saber mais, e com tristeza tive a notícia de que uma embolia pulmonar havia ceifado a vida do pequenino guerreiro. Histórias como esta são muitas.

Sexta conto mais.

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