Na terra do chope, o “estrago” da carne

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João Augusto da Palma * 
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Aqui também ocorrem as transformações que são sutis, absorvemos e ficam valiosas. 
Casas alugadas viram alojamentos de trabalhadores. Recrutados por agenciadores de mão de obra barata, do Norte e Nordeste (principalmente do Ceará). São jovens (entre 20 e 25 anos), a maioria de solteiros. Os casados assumem aluguel de pequeno valor (bairros Flamboyant, Portinari e outros). 
Dizem que estão com “carteira assinada” e recebem quase três mil reais por mês, com jornada longa, em dois turnos. Ninguém fala em horas extras. Mostram uma disposição e humildade como se estivessem em Serra Pelada. Depois de alguns meses vão visitar a família. Muitos não voltam mais. Abandonam o emprego. Detalhe: estão no lugar dos nossos. 
Esta migração está na área que tem o aroma do churrasco. No eixo das avenidas Presidente Vargas-Diederichsen, onde no raio de 500 metros encontramos uma churrascaria. Era uma ou duas, agora são oito (com as da Vargas). Em linha reta vão da Independência, rotatória Sumaré, ao estádio do Botafogo. 
Mas há transformações. 
Uma delas mudou de “instância”, virou pizzaria caipira. Vende o dia todo comida a preço popular (R$ 29,00). 
A mais nova, bastante “ativa”, usa as ruas do bairro para estacionamento dos carros da clientela (enquanto não for incomodada! Será?). 
A antiga da cidade (70 anos no Centro) se mudou para a mesma área do aroma. Juntou-se às demais e oferece até pratos promocionais (R$ 16,00) e chopp em dobro.
Uma outra exalta suas “brasas” nas alturas. 
Virar pizzaria, oferecer chopp em dobro e preços especiais é consequência do momento. A inflação da proteína jogou a carne no andar de cima, tinha gente pagando para não fechar. 
O estilo rodizio ficou lento, com menos garçon e retendo o consumo, porque o preço é único, por pessoa. Era preciso acenar para ser servido. (“Garçom, aqui nesta mesa de bar…”).
 ter a carne argentina, comprada onde a nossa moeda vale mais, não resolvia. Exigiu iniciativa para dar uma guinada e “salvar a lavoura”. Isto é, a empresa, os empregos. Quem se transformou está lotada, dia e noite, todos os dias (com produtos de qualidade). Foi coragem para sobreviver.
A região do “aroma do churrasco” tende crescer, com valorização imobiliária e mais empresas (comerciais) após melhorias com as obras viárias na área.
Já fomos a Capital do Café, depois da Mogiana, da Cultura, do Agronegócio, do Chopp e agora temos a tentação do churrasco, que faz a lotação o ano todo. Muito mais nas épocas da Agrishow e da Festa do Peão (Barretos).
A parceria com o chopp reforça a fama da cidade com o clima sempre aquecido.
Não é só crescimento “gelado” e o melhor aroma que a cidade registra. Também ocorrem o fim de empresas tradicionais, que fecharam o seu ciclo. Por exemplo o Restaurante do Val, o Pinguim do Shopping Santa Úrsula, o Nobre Chopp do Novo Shopping, sem falar nos postos de combustíveis (assim foram e já eram postos de serviços).
A modernidade nos impõe revisões, novos direcionamentos dos projetos. Sem receios, com determinações.
Nosso DNA é o dos serviços. Professores Golfeto e Gaba (USP), da economia, que o digam. Mas sem “importar” a mão de obra que afasta a nossa. Aqui também há desemprego, miséria e sofrimento. 
Podemos crescer, mas com sintonia na realidade do momento: os investidores escolhem empresas que dispensam menos e que tem comprometimento social. Acreditamos.

Advogado especialista (USP) em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, professor e escritor