FOTOS: ALFREDO RISK

Professora e ativista feminis­ta Judeti Zilli iniciou sua forma­ção política nas Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação, na região Norte da cidade, na década de 1980. Foi conselheira tutelar por sete anos, militou em pastorais e mo­vimentos sociais a atualmente é a cara do Mandato Coletivo que leva seu nome na Câmara de Vereadores de Ribeirão Preto. O Coletivo foi eleito com 1.614 votos nas eleições municipais do ano passado.

Junto com seus co-parlamen­tares: Sílvia Diogo (assistente so­cial), Ádria Maria (professora), Danilo Valentim (professor), e Paulo Honório (fotógrafo/edi­tor), Judeti tem sido uma voz questionadora na atual Câma­ra – 2021 a 2024 – em relação a atual administração municipal.

 

Tribuna Ribeirão – Vocês estão em seu primeiro mandato parla­mentar. Como avalia a eleição nas eleições municipais do ano passado?
Coletivo Judeti Zilli – Conside­ramos as eleições municipais do ano passado um reflexo da conjuntura nacional, estadual e municipal do país desde 2016. Destacamos a intensifica­ção no uso da internet e redes sociais no alcance da população como forma de tentar o diálogo e informá-la. Esse uso das mesmas se aprofundou no município e país devido ao contexto de pandemia da covid-19, servindo para informar a população, apresen­tando as propostas, projetos e a nossa história, utilizada também como dis­seminação de calúnias e fake news. Foi um divisor de águas em relação aos desafios democráticos do proces­so de constituição do mandato cole­tivo visando efetiva participação e representatividade.

Tribuna Ribeirão – A pandemia do coronavírus mudou o jeito de se fazer campanha em função do distancia­mento social. Como vocês fizeram para chegar ao seu eleitorado?
Coletivo Judeti Zilli – O contexto de pandemia oportunizou um apro­fundamento no uso das redes sociais na forma de se fazer campanha e se comunicar com a população. Porém, as formas tradicionais e amplamente conhecidas e vivenciadas por nós, se fizeram presentes nas eleições de 2020 em menor escala como, a propaganda eleitoral na televisão, panfletagem, e o diálogo presencial com a população (embora reduzido), respeitando os protocolos de segurança no combate a covid-19, como o distanciamento social de um metro e meio, o uso de máscaras e álcool em gel.

Tribuna Ribeirão – Qual o perfil do eleitorado do Coletivo?
Coletivo Judeti Zilli – Pensando em termos de eleitorado não temos um perfil único e definido, justamente porque o Coletivo Popular Judeti Zilli é a soma de uma construção histórica que envolve diversas representações da cidade e dos movimentos sociais, em que primamos pelo compromisso e necessidade de representar a classe trabalhadora, pessoas vulneráveis, mulheres (lgbtqia+), negros, servi­dores públicos. Nosso eleitorado se define dentro do espectro da centro esquerda progressista.

Tribuna Ribeirão – A pandemia tem atrapalhado o trabalho parla­mentar do Coletivo?
Coletivo Judeti Zilli – A pande­mia tem dificultado imensamente o trabalho do Coletivo Popular. O primeiro motivo é porque dian­te das funções obrigatórias de um mandato legislativo coloca algumas barreiras no papel fiscalizador. O segundo, e que é inerente a caracte­rística do CP tem relação com o per­fil político que é de atuação histórica nos movimentos sociais, entidades e conselhos da cidade. É um grupo que possui como perfil a interlocução com os munícipes e está cumprindo e sofrendo, como toda a sociedade as devidas restrições sanitárias.

Tribuna Ribeirão – O Partido dos Trabalhadores aumentou o nú­mero de vereadores de um para dois em relação à legislatura anterior. A que vocês atribuem este aumento?
Coletivo Judeti Zilli – O nosso entendimento referente ao aumento dessa representatividade no legislati­vo é porque o grupo político ao qual pertence o Coletivo Popular e o cons­truiu por décadas, tenha relação com as bases sociais e a população. Vive as suas demandas. Está no cotidiano do munícipe. Há uma ânsia social e po­lítica por novos paradigmas de polí­ticos (as) coerentes com as narrativas e modos de vidas territoriais, de fato e direito representativos, plurais, não centralista e nem personalista, que seja interlocutor direto com os gru­pos minoritários e excluídos que mais necessitam da presença do estado de bem estar social.

Tribuna Ribeirão – O PT teve várias lideranças nacionais acusa­das e condenadas por corrupção. Isso dificulta o trabalho de vocês junto ao eleitor?
Coletivo Judeti Zilli – Infelizmen­te, a corrupção é estrutural, ancorada na dominação colonialista, capitalista racial e patriarcal, sustentadas pela síndrome do vira-latas e do povo cor­dial, social, cultural e historicamente construídas e reproduzidas pela elite dominante. Logo, todos os partidos, vivenciaram no exercício do poder algum tipo de corrupção. Tais de­núncias, apurações e processo legal devem seguir o devido ordenamento jurídico. Que se apure, investigue e tome as providências cabíveis quan­do comprovados tais irregularidades e corrupções sempre dentro dos trâ­mites legais. O trabalho do Coletivo Popular consiste exatamente no es­clarecimento, na desmistificação ma­niqueísta da política, do potencial de reconhecimento e sentimento de pertença, das pessoas, da classe trabalhadora, elucidando as regras e jogo político de grupos e classes dominantes que se perpetuam no poder. Logo, vislumbra colocar luz nos meandros e exercício do poder político em sua complexidade, acima de tudo democrática.

Tribuna Ribeirão – Qual a diferen­ça fundamental entre um mandato coletivo e um mandato tradicional em que o vereador é eleito sozinho?
Coletivo Judeti Zilli – A centra­lidade de um mandato coletivo é a descentralização do poder, com re­lações efetivamente dialógicas, ho­rizontais, plurais e representativas. Não existe salvador ou salvadora da pátria e um povo só se salvará, por si. O movimento é de baixo para cima, é circular e sistêmico e isso é a tônica fundamental, que ao, nosso ver, ape­sar de não trazer novidades teóricas e conceituais, inauguram novos ventos na política brasileira.

 

Tribuna Ribeirão – Quais são as prioridades do Coletivo Judeti neste mandato?
Coletivo Judeti Zilli – Nossa prio­ridade é promover a ampliação da participação social na gestão da cidade e práticas cidadãs no legislativo, atra­vés de plataformas de interação com o CP. Organizar os trabalhadores de setores excluídos, minorias políticas e vulneráveis e possibilitar o acesso efetivo aos direitos humanos funda­mentais na busca incessante da redu­ção das desigualdades sociais. Nossos projetos visam discutir e atender de­mandas da educação, movimento de mulheres, lgbttqi+, movimento ne­gro, moradia, crianças e adolescentes.

Tribuna Ribeirão – Em relação ao combate ao coronavírus que ava­liação o Coletivo faz da administra­ção municipal?
Coletivo Judeti Zilli – O Executivo e a administração municipal não pos­suem um comitê que reúna diferentes atores sociais, para além do corpo técnico do governo e representantes do comércio e empresários, com um plano claro e transparente. A pande­mia exige diálogo e pactos constantes com toda a população, sobretudo, em relação aos cumprimentos sanitários e de isolamento social, tão difíceis de serem atingidos, pela minimização e negacionismo do colapso sanitário. O Plano São Paulo não atende a urgên­cia veracidade dos fatos atuais. Não há um plano de ações pautadas em políticas públicas para proteger a vida da população no município. Desde de março de 2020 não houve um pro­grama de testagem em massa como prevê os protocolos de segurança elaborados por cientistas e reco­mendações da Organização Mun­dial da Saúde, sequer a implementa­ção de um programa municipal de renda básica, ainda ocorreu. O de­bate da pandemia e o cumprimento de protocolos de segurança passam por uma política econômica, tam­bém, no sentido de dar proteção e segurança as famílias que precisam trabalhar para gerar o seu sustento, bem como, de ampla e maciça cam­panha educativa em todos os âmbitos. É necessário desconstruir a falsa dico­tomia entre saúde e economia.
Diante disso, nós do Coletivo Po­pular juntamente com outros manda­tos, entidades, sindicatos, autorida­des, movimentos sociais, cientistas, jornalistas, professores, presidentes de bairros, e uma parcela importante da sociedade civil decidimos construir um Comitê de Combate à Pandemia no Município de Ribeirão Preto. Ele é aberto a toda população. Estamos construindo um programa, planeja­mento e ações para o município no combate à pandemia baseado em dados, experiências de outros muni­cípios e países que foram bem-sucedi­dos no combate a covid-19 e na ciên­cia. Temos um programa de combate a covid-19 para a cidade, e é de extre­ma urgência que o secretário da saúde e o prefeito Duarte Nogueira abram o diálogo e ouça o Comitê. O que está em jogo são vidas e a saúde de toda a população. Vidas estão sendo ceifadas e poderiam ser evitadas.

Tribuna Ribeirão – E que avalia­ção vocês fazem do presidente Bol­sonaro e do governador João Doria na condução das ações contra ao coronavírus?
Coletivo Judeti Zilli – Em rela­ção ao governo Bolsonaro estamos lidando com um governo negacio­nista, suas ações são pautadas em su­bestimar e menosprezar os impactos da pandemia covid-19. Promove o descumprimento das medidas de se­gurança e protocolos sanitários, reco­mendadas pela comunidade científica e Organização Mundial da Saúde.
Sua postura é monocrática, an­tidemocráticas e irresponsáveis, fundamentadas no negacionismo, demonstrando desumanidade e despreocupação em salvar vidas e cuidar da saúde das pessoas, negando a compra de vacinas no ano passado, o que impactou diretamente na morte de milhares de brasileiros, e na mo­rosidade na campanha de vacinação que está em andamento, evidencia­das na CPI da Covid. Neste momen­to, a vacina para todos e todas é a única solução sanitária, para mini­mizar esta situação de pandemia co­lapsada que nos encontramos, cujas sequelas ficarão e exigirão ser tratadas nos próximos anos.
Sobre o governador João Dória, o Plano São Paulo do governo, não atende as reais necessidades e avalia­ções quanto à disseminação, testagem, rastreamento e isolamento social. As ações das fases classificatórias e res­tritivas, resultantes em lockdows, sem projetos de proteção social, baseadas preferencialmente, na implantação de leitos de UTIs, são questões que re­ferendam a certo modo, a negação à ciência. Faz uso político e eleitoral do Butantan. Uma batalha política visan­do às eleições 2022 norteia e camufla a realidade sanitária, política e econô­mica do país há meses. Vivemos de longe a maior tragédia da história do Brasil, com exceção do genocídio in­dígena e da escravidão.
Enfim, Jair Bolsonaro e João Dória são negacionistas. A diferença é que o presidente assume isso publicamente enquanto o governador Dória se es­conde atrás de um discurso hipócri­ta de preocupação com a população. Ambos não implementaram políti­cas públicas sociais e econômicas de combate a covid-19, por isso são faces da mesma moeda.