Jornal Tribuna Ribeirão

O dia em que a liberdade realmente raiará

professor

No próximo dia 7 de setembro será celebrado o Bicentenário da Independência do Brasil, porém quando Evaristo da Veiga escreveu a letra do belo Hino, certamente se esqueceu de parte considerável do povo brasileiro. Quando em 1822 cantavam “Já podeis da Pátria filhos ver contente a mãe gentil, já raiou a liber­dade no horizonte do Brasil” falavam na relação da ex-colônia com Portugal. E se, por um lado, “Os grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil” estavam sendo quebrados, outros grilhões e correntes mais cruéis permaneceriam por muitos anos castigan­do a população negra mantida escravizada.

No Brasil a escravização foi um processo extremamente violento, uma forma eficiente de exploração do trabalho alheio que por cerca de 350 anos sequestrou e destinou para cá mais 4,5 milhões de africanos. O maior território escravagista do Ociden­te foi também o último a abolir a prática.

Segundo os registros históricos, no dia 13 de maio de 1888, após longos seis dias de votações e debates no Congresso, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. A ela é atribuída a frase “Se mil outros tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia para pôr fim à escravidão!” Realmente a monarquia durou pouco mais de um ano até a proclamação da república em 15 de novembro de 1889. Quanto aos escravizados, muitos não foram libertos, relatos e registros apontam que a escravidão perdurou em vários locais, um exemplo é a cidade de Campinas até o ano de1920.

Lá os senhores eram mais violentos e usavam técnicas como o corte dos tendões o que
impossibilitava a fuga, mas não o trabalho. No pós-abolição pessoas pretas e pardas continuaram constrangidas em seus direitos por indivíduos que buscavam fixá­-las nos limites da escravidão. Até hoje o noticiário continua apre­sentando casos de racismo e de trabalho escravo contemporâneo onde pessoas trabalham em condições precárias, muitas vezes “em troca” de um prato de comida e um local para pernoitarem.

Enquanto dados do IBGE mostram que 54% da população brasileira é negra, os indicadores econômicos, políticos e sociais permanecem díspares. Uma das explicações é a cultura de que existem algumas pessoas superiores e que outras devem ser­vi-las, também a dificuldade de compreensão de que possuir características físicas diversas não significa possuir menor capaci­dade. Recentemente estamos experimentando uma crescente e peri­gosa onda racista e preconceituosa fomentada por gente que insiste em atacar outrem por conta de sua religião, aparência física, gênero, orientação sexual, cor da pele, país ou cidade de origem. Assim torna-se obrigação de todos e todas a busca por informações e respostas para qualificar o debate racial e a luta antirracista.

Em Ribeirão Preto, após produtivo debate com as represen­tações e militantes do movimento negro, o Coletivo Judeti Zilli protocolou o Projeto de Lei que institui o Estatuto Municipal de Promoção e Igualdade Racial e do Combate à Intolerância Religiosa, objetivando garantir à população negra e indígena a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étni­cos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica e religiosa, como ação Munici­pal de desenvolvimento, objetivando a superação do preconceito, da discriminação e das desigualdades raciais e religiosas.

A expectativa é que a Casa Legislativa aprove a matéria, depois será preciso exigir que o executivo adote as medidas necessárias para efetivação de mais essa importante ferramenta na permanente luta pela igualdade. Chegará o dia em que a li­berdade realmente raiará com negros e negras sendo valorizados e respeitados e juntos poderemos cantar que “Do universo entre as nações resplandece a do Brasil”.

Mais notícias

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
AllEscort