A melancolia de sua poesia, a constância da morte em suas composições, a crença no amor e na bondade e a capacidade de versar sobre as coisas mais singelas da vida, tais como a beleza das flores, o canto dos pássaros e o vôo do beija-flor, marcam a trajetória artística de Nelson Cavaquinho, o menestrel da Mangueira.

Nelson era um ser desprendido das coisas e dos anseios materiais, seguia fielmente a filosofia do Carpe diem (aproveite o momento), vivendo de forma simples e intensa, e fazendo amigos por onde passava.

Ao ser indagado sobre como Nelson se relacionava com as pessoas, o compositor e poeta Paulo César Pinheiro disse: poucas vezes vi pessoas tão ternas no tratar com seus semelhantes, com a gente simples e humilde (prostitutas, marginais, bêbados, mendigos) que povoa seu cotidiano. Vi Nelson ganhar cachês e distribuí-los inteiros entre essa gente, num começo de manhã, ficando sem dinheiro para voltar para casa.

Nelson tinha uma virtude rara entre os poetas, conseguia retratar de forma lírica, acontecimentos trágicos, tais como a morte de um ente querido, a traição da mulher amada ou o fim de um relacionamento amoroso.

Em 1943, Cyro Monteiro foi o primeiro sambista a gravar uma música do compositor, chamada “Aquele bilhetinho”. Esse samba descreve de forma poética o fim de um relacionamento, dizendo assim: aquele bilhetinho que você mandou pra mim, dizia simplesmente o nosso amor chegou ao fim. Você não imagina o grande mal que me fez, estou sem amor outra vez. O tempo é um aliado de quem sofre por amor, espero você seja lá quando for.

Quando questionado sobre as razões da constante presença do tema morte em suas composições, o nosso sambista afirmou: eu não tenho medo da morte, mas sou um homem que está muito perto da fatalidade, por isso minhas músicas falam sempre em morte, em Deus e em amores fracassados.

Nelson realmente viveu muitas tristezas. No começo da década de 1940, depois de três dias e três noites na rua tocando cavaquinho, voltou para casa e descobriu que sua mãe havia morrido e fora enterrada dias antes.

O sambista sempre dizia não temer a morte, entretanto, ao sonhar que iria morrer às três horas da manhã daquele dia, não foi para a boemia, não bebeu, não tocou, não dormiu e ficou olhando atentamente para o relógio, que teimosamente insistia em não parar. Onze horas, meia-noite, uma hora, uma e meia, mas duas horas já era demais. Rapidamente pulou do sofá, enxugou com a manga do pijama o suor que lhe caia pela testa, correu em direção ao relógio, e ainda em tempo, conseguiu alterar os ponteiros, atrasando-o para a meia-noite. Aliviado e com a certeza de que o seu dia ainda não havia chegado, o menestrel dormiu como um anjo, certo de que a sua missão ainda não estava cumprida.

Dentre as mais belas composições do nosso menestrel podemos destacar “A flor e o espinho”, em parceria com Guilherme de Brito e Alcides Caminha. Para o poeta Manoel Bandeira essa música tem a frase mais bonita da música popular brasileira: tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor.

Sabemos que a venda de sambas e a concessão de parceria a terceiros era comum no Rio de Janeiro, na primeira metade do século XX, e Nelson foi um dos compositores que mais utilizou desses recursos para sobreviver.

Cartola conta uma história verídica, na qual ele estava no morro escutando um samba de um novo compositor, quando reconheceu aquela música, e disse: o meu amigo, esse samba é meu. Eu fiz esse samba com o Nelson. O sambista assustado respondeu: eu comprei esse samba dele. Dias depois ao encontrar o sambista em Mangueira, Cartola falou: nunca mais serei seu parceiro, pois nós fazemos um samba juntos e você vende para os outros. Nosso menestrel, muito calmo e solicito, com aquela voz rouca que lhe era peculiar, respondeu: Cartola, eu só vendi a minha parte da música.

Um de seus mais constantes ”parceiros” é César Brasil, proprietário de um velho hotel no centro do Rio de Janeiro e incapaz de compor um verso ou de tocar uma nota em qualquer instrumento. Como o destino fez do nosso sambista um de seus hóspedes, também fez com que César Brasil entrasse para a história da música popular brasileira como co-autor do samba “Degraus da vida”, um dos mais belos sambas do violonista.

Uma das frases mais pronunciadas pelo sambista era a seguinte: olha, não confia nesse pessoal da música não, viu. Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Zé Keti e outros como eu, só fazemos músicas, porque não gostamos de trabalhar.

Isso mesmo menestrel, você não tinha tempo para o trabalho formal, pois se ocupava da poesia e da boemia. Você era “o dono das calçadas, aquele que vagava nas madrugadas, e para todos aqueles que te estendiam a mão, você dividiu seu coração”.
Salve Nelson Cavaquinho, o dono das calçadas!

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