O futuro do trabalho do futuro

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Não é segredo para mais ninguém que está em curso uma grande transformação na organização do trabalho. Mudanças referentes à chamada Quarta Revolução Industrial perpassam por questões que envolvem automação, robôs, análise de big data e aprendizado de máquina. Nesse contexto, é preciso atentar para o saldo do desemprego crescente e a criação de postos de tra­balho mais qualificados ou até novos padrões de trabalho. Pesquisadores brasileiros e alemães vêm discutindo novas tecnologias, processos de trabalho em empresas e a necessidade de aprendizado de novas habilidades. A relação entre inteligência artificial e seu impacto no mercado de trabalho tem ocasionado sua discussão por cientistas, empresas e políticos. E esta questão é tão relevante que alguns países estão criando Ministérios de Inteligência Artificial para lidar com as dificuldades que envolvem a transição no trabalho. Neste contexto, especialistas defendem que é preciso incluir esses temas na educação e, principalmente – em tempos de inteligência artificial e aprendizado de máquina –, aprender a raciocinar. Em outras palavras, é preciso educando as pessoas para trabalharem no contexto mundial atual em adição ao que se acena para os próximos cinquenta anos.

De acordo com o relatório do Fórum Econômico Mundial, publicado recentemente, as máquinas farão mais tarefas do que os humanos já em 2025, porém a revolução dos robôs criará 58 milhões de novos empregos nos próximos cinco anos. “Esses novos postos viriam a partir da adoção de novas tecnologias em empresas e na indústria, como uso e análise de big data, internet das coisas e aprendizado de máquina. Enquanto se perde de um lado, ganha-se com novas habilidades, e isso não necessariamente tem um saldo positivo”, disse Bernd Dworschak, pesquisador sênior do Fraunhofer Institute for Industrial Engineering. Ainda de acordo com o rela­tório, a rápida evolução de robôs, máquinas e algoritmos no mercado de trabalho pode criar 133 milhões de novos postos de trabalho, enquanto outros 75 milhões perderão lugar até 2022. Essa mudança na organização do trabalho já passa a ser sentida nos empregos.

No Brasil, Afonso Fleury, docente da USP, afirmou que “a escolha pela tecnologia é sempre interessante, mas não podemos esquecer que ela passa também pela criação de políticas industriais, de ciência e tecnologia. Enfim, é uma decisão que deve ser feita em cada país”, disse. Para ele, a situação brasileira não serve como boa base para o enfrentamento da revolução 4.0. “No Brasil, temos algum avanço no setor agroindustrial e no de serviços, mas estamos enfrentando a desindustrialização, mas não necessariamente na indústria digital”, disse Fleury. Estudo realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicou que atualmente apenas 1,6% da indústria brasileira está na chamada indústria 4.0 – quando a produção é conectada por meio de tecnologias da informação integradas e processos inteligentes, com capacidade de subsidiar gestores com informações para tomada de decisão. No mesmo estudo, a chamada indústria 3.0 corresponde a 20,5%. Já as indústrias 2.0 e 1.0 correspondem a 39,1% e 38,7%, respectivamente. Segundo pesquisadores, no Brasil existem ainda dois entraves principais para a transição do traba­lho: produtividade e qualidade educacional.

“O Brasil tem um problema grave de baixa produtividade e baixa qualidade educacional. Como podemos pensar em robôs, máquinas e inteligência artificial?”, disse Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper. Outro ponto abordado no 7º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pes­quisa e Inovação foi aprender e ensinar, ou seja, a importância do aprendizado de novas habilidades para um mundo digitalizado. “As discussões sobre as mudanças digitais vêm muito associadas a outra sobre o que vai ocorrer aos trabalhadores. Será que eles estão sendo preparados para esses novos tempos? E aqueles que já estão no mercado de trabalho, como eles serão preparados? É preci­so buscar organizar as ideias em torno da educação para essa nova era”, comenta Ana Maria Almeida, professora da Unicamp.

Markus Feufel, professor da Universidade Técnica de Berlim, focando sobre como as habilidades humanas continuam tendo valor em um mundo digital, e como este pode ser benéfico, aumentando as competências dos trabalhadores, entende que, apesar dos avanços em inteligência artificial e outras tecnologias, há situações em que as competências humanas são necessárias e é preciso treiná-las nos estudantes. “Para algumas situações, computadores são ótimos, devemos usá-los porque realmente melhoram nossas competências. Mas, em outras situações, isso não ocorre. As competências humanas devem ser o foco principal. Especialmente na universidade, não estamos treinando nossa intuição, nossa tomada de decisões. Nossas competências acadêmicas não são tão úteis em muitos contextos”, disse Feufel. Simon Schwartzman, do IETS-RJ, entende que um primeiro passo seria uma reforma no ensino médio brasileiro, atualmente muito focado na entrada na universidade. O problema é que poucos acabam entrando e, mesmo os que se formam, atuam fora de suas áreas. “É preciso que os alunos realmente aprendam habilidades, não apenas repitam o conhecimento dos professores”, afirma.

Outro tema relevante para esses pesquisadores é a questão da desigualdade. Sobre ela, eles destacam que, para se pen­sar uma educação mais avançada, no entanto, ainda é preciso superar desigualdades muito prementes na Alemanha, mas principalmente no Brasil. Enquanto no país europeu chama-se a atenção para alguns pequenos grupos como de pessoas mais pobres, portadores de deficiências, imigrantes e que precisam cuidar de filhos pequenos ou pessoas doentes, no Brasil ainda há diferenças baseadas em renda e raça. Monika Hackel, professora do Instituto Federal de Educação Vocacional e Treinamento da Alemanha, entende que o sistema de ensino profissionalizante de seu país teve de desenvolver formas de não deixar nin­guém para trás no processo de industrialização alemão. “Temos leis para dar suporte a alguns grupos especiais, como pessoas que cuidam de filhos pequenos ou de pessoas doentes ou mais velhas. Nós oferecemos flexibilidade na duração dos cursos profissionalizantes. Há ainda módulos especiais para pessoas com dificuldades de aprendizado e a possibilidade de treinar novamente aqueles que não conseguem mais trabalhar em suas antigas funções”, disse.

Por sua vez, Márcia Lima, professora da USP e pesquisadora sênior do Cebrap, afirma que, para avançar no debate sobre aprendizado de novas habilidades e tecnologias, é preciso ter em mente, pelo menos no Brasil, as desigualdades educacionais extremas e como grande parte dos avanços nesse campo é recente. “O paradoxo da educação é que ela pode reduzir desi­gualdades dando oportunidades. No entanto, o sistema educacional reproduz desigualdades em vez de corrigi-las. Por isso, é imperativo refletir como essas novas habilidades e tecnologias vão aumentar a lacuna social e racial”, afirma. Um novo ano se aproxima. Tempo propício para refletirmos sobre tais questões. Elas balizam, sem dúvida, o futuro que virá.

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