As flores vem de mansinho, aparecem devagar nos ga­lhos desnudos e, de repente, arrebentam aos borbotões em buquês floridos de amarelo: são os ipês que colorem a flora do condomínio onde moro. É interessante, porque a estação e a seca desvestem as árvores de suas folhas, mostrando que, onde havia manchas de verde, há agora esqueletos de galhos. Mas, os ipês formam manchas amareladas, que se destacam na pouca vegetação ainda presente. O vento, o grande jardi­neiro de agosto, logo derruba várias das flores amarelas, que tingem o chão de uma camada de ouro. Os caminhos, outrora estéreis, brilham de alegria dourada. Quanto mais frio e seco o inverno, maior e mais bela a florada.

O ipê é nativo do Brasil e em 1961 o excêntrico Presidente Jânio Quadros elevou o ipê tabebuia vellosoi à condição de Flor Símbolo do País. Em tupi, ipê significa árvore cascuda. Pertence à família das Tabebuias, que em tupi significa árvore que flutua. É parente distante dos jacarandás. Sua incidência estende-se do Brasil até a Argentina e Paraguai, onde recebe o nome de lapacho.

Árvore de madeira dura e resistente, é testemunha do nosso passado, escorando até hoje os telhados de nossas igrejas coloniais. Sem ele, talvez não tivéssemos a beleza silenciosa dos templos do século XVIII, alguns deles cheios de ouro em seus altares. Parece que as grandes toras ajudam a espraiar o cheiro de incenso que cria neles uma atmosfera ao mesmo tempo surrealista e celeste. Depois de tanto tempo, não perdeu sua importância para a indústria da construção e naval. Faz um su­cesso enorme no exterior, sendo revestimento caro e cobiçado.

Transplantado para o paisagismo de jardins e praças, é árvore discreta, sem muito charme, até surgirem suas flores encantadoras. Duram pouco, mas surgem a cada ano, como a mostrar que as coisas boas da vida, se duram pouco, retor­nam sempre.

Há alguns anos, foi notícia de que sua casca teria efeitos anticancerígenos. Nada foi provado, houve muita pesquisa, restando a esperança daqueles desesperançados que tudo fazem na busca da cura.

Não só de amarelo são suas flores: há os roxos, os rosas, os verdes, os brancos, cada um com sua beleza e com sua singularidade, como se todos orquestrassem o momento de florescer.

O ipê tem também seu lugar na literatura brasileira. José de Alencar, que inaugurou a literatura pátria, libertando-a de Portugal, tem no “Tronco do Ipê” um dos seus livros mais conhecidos.
Trata-se de uma história de amor, um crime, envolvendo a escravidão que manchava o Brasil. O autor, infelizmente, tinha ideias retrógradas sobre a libertação dos escravos, pois entendia que a mesma decorreria da liberalida­de dos senhores e os cativos deviam ser agradecidos à oportu­nidade de civilização.

Nas corridas matinais e na correria do dia a dia um ipê amarelo surpreende pela beleza e nos desliga de nossas pre­ocupações e problemas. Só há olhos para a beleza das flores, produto da natureza caprichosa e momento de reflexão sobre como as coisas belas da vida são gratuitas. Basta ter olhos para as percebermos.

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