Cada edição da Feira do Livro de Ribeirão Preto é para os au­tores locais e regionais o momento mais aguardado para fazerem seus lançamentos. A divulgação desses novos livros merece uma página na revista impressa e virtual onde consta a programação da feira. As produções locais também possuem conteúdos inte­ressantes e importantes. É o caso do infanto-juvenil “O menino, a roda e o lixo” de Daniela Sudan.

Daniela lança seu “menino” ao mundo nesta Feira do Livro que tem como tema os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Mais conhecidos pela sigla, os ODS compõem uma agenda comum mundial de desenvolvimento que valoriza e equilibra as dimensões social, econômica e ambiental.

As metas do programa das Nações Unidas lançadas em 2015miram 2030. São ambiciosas e requerem um despertar urgentealiado a um agir competente. Assegurar pa­drões de produção e consumo responsáveis é o 12º ODS de um total de 17. Em seu livro, Daniela aborda exatamente o tema do consumo exagerado e de seu consequente desperdício.

A história do menino que “acorda” para o problema do lixo é contada em versose assim a poesia permeia todo o texto. Dife­rente de muitas publicações para esta faixa etária sobre os temas ambientais, neste os conteúdossão apresentados de maneira mais aprofundada o que induz à reflexão e à construção crítica do conhecimento.

De saída a autora aborda o fato das pessoas, de modo geral, falarem muito sobre o incômodo que o lixo provoca e da neces­sidade de reciclá-lo, mas quea grande maioria ageacanhadamen­te perante o problema. “Em meio a tanta falação,/É uma monta­nha de lixo que cresce/ Nos fundos da cidade,/ Numa engenhosa construção”. Onde fica e como estão os “fundos” dasua cidade?

Em seguida o assunto éo consumo, o descarte e a felicidade projetada em cada pacote.É a roda do “compre mais e jogue fora”. Diante do incessante pedido por um novo brinquedo, uma mãe atenta às coisas do mundo, diz “meu filho, acalme seu coração”. E assim, pelas mãos dos adultos, no caso a mãe e o avô, o menino procura entender o porquê de seus brinquedos serem tão passageiros e desperdiçados dia após dia. Então, chegamosà metade da história e as duas páginas centrais ganham o apogeu da ilustração de Myrna Maracajá que acompanha todo o livro.

Não serei um “spoiler” da nova publicação da bióloga e educado­ra ambiental. Daniela Sudan também possui experiência como ges­tora de resíduos sólidos na Universidade de São Paulo (USP) e por isso, têm credenciais para pedir-nos que repensemos nossa relação com o consumo e o lixo. Recomendo a leitura não só aos infantos e juvenis, mas também aos adultos, sobretudo os professores.

Em sua biografia, a autora conta que atribui um grande valor aos trabalhadores que tiram seu sustento a partir da coleta e tria­gem do lixo reciclável. Assim ela relata “o lixo vem sempre acom­panhado das pessoas, de suas histórias de vida, do desperdício de uns, da miséria de outros”. Percebo que ela nos pede que olhemos com carinho para nosso lixo e não com desdém. E também para aqueles e aquelas que sobrevivem do lixo.

Boaventura de Souza Santos, sociólogo português, em sua brilhante palestra durante a feira deste ano, discorreu sobre “Ecologia dos saberes”. Disse a um Theatro Pedro II lotado que associaros diferentes conhecimentos é a melhor maneira de lermos e interferirmos no mundo.

A Feira do Livro de Ribeirão mantém Há quase vinte anos uma potente programação com poetas, romancistas, jornalis­tas e todos os outros matizes de escritores. Os de fora e os que lavram sua prosa e poesiadeste basalto e deste aquífero. Convida as pessoas a saberdo mundo para além do lugar-comum. É uma riqueza que passa por aqui durante alguns dias do ano.

Nesta 19ª edição, trouxe o tema do desenvolvimento susten­tável. Se soubermos ler com atenção os ODS ese olharmos com profundo respeito para os “fundos” da cidade, nossorumoa 2030 certamente será o melhor possível. A Feira do Livro poderia ter como patrono em 2020 um catador de lixo.

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