A “Dama Oculta” é o título do penúltimo filme que Hitch­cock dirigiu ainda na Inglaterra, o que ocorreu em 1938. Logo após transferiu-se para os Estados Unidos onde construiu uma brilhante carreira.

Afirma-se que este filme é considerado a única comédia deste diretor. Com outra visão, elegi a película como marcadamente filosófica. Minha opinião não é técnica porque consabidamente não sou filósofo e muito menos psicólogo. Mas vamos em frente.

No filme, uma moça conhece uma senhora enquanto as duas viajam num trem. Convivem pouco tempo porque a senhora logo desaparece. A jovem sai à procura dela. Não a encontrando, passa a pedir ajuda a várias pessoas que a viram juntas. Todas elas negam ter visto a jovem com a dama. Elas es­tão mentindo porque tiveram oportunidade de ver a jovem com a dama. Todas mentem, mas cada uma tem um motivo diferente para faltar com a verdade.

Importante para Hitchcock é destacar que cada mentiroso tem uma razão diferente para mentir. A jovem se desespera porque tem firme certeza que foi vista por todos ao lado da dama oculta. Nas cenas finais, as perguntas encontram resposta.

O filme profetiza a existência de inúmeros episódios da nossa existência nos quais testemunhamos discussões intermináveis por debatedores que ocultam a razão da sua própria verdade, mesmo quando mentem. Se é que todos possam crer que somen­te eles são dotados da lente para enxergar contraditoriamente, a verdade converte-se em uma grande mentira. Não há verdades que se contradizem. Mas, a toda a hora presenciamos o fenôme­no, lembrando a lição extraída do filme. Imperdível, de verdade.

A moça insiste com todos que estão dentro do trem: “Você me viu ao lado da senhora”. Todos estão mentindo quando afir­mam: “Nós vimos a senhora dentro do trem, mas sozinha”. Todos mentem, mas cada um tem uma razão diferente para mentir.

O extraordinário escritor Érico Veríssimo deixou uma frase que profetiza tão grande encrenca: “todos nós somos um mistério para os outros… e para nós mesmos”. A pandemia de co­vid-19 demonstrou com firmeza que todos acreditam conhecer a chave para abrir esse enorme mistério. Poucos serão aqueles que conseguem dar concretude para os seus conhecimentos encami­nhando-os para a plenitude da verdade. Muitas vezes só o tempo será a razão da verdade. Mesmo com a cobrança de preços imen­sos, como com a exigência de infindável mortandade.

Érico Veríssimo durante algumas vezes deu aulas em uni­versidades americanas, chegando mesmo a prestar serviços para a OEA. Afirmou que numa solenidade, um norte-americano, conversando com ele, perguntou se o Brasil era maior ou menor do que o Estado do Texas. O nosso diplomata respondeu que o Brasil era maior do que os Estados Unidos. Mas, claro, isto por volta da metade do século XX,

Atualmente aquela verdade se desmoronou. Os Estados Uni­dos cresceram desmedidamente. O tempo mudou a certeza de Érico Veríssimo. Hoje os Estados Unidos tornaram-se donos do Canal do Panamá, de Porto Rico, do Havaí, do Biquíni, invadi­ram o Afeganistão, o Iraque e durante um largo tempo ocuparam o Vietnã. Não nos esquecemos do que significa a antiga regra: “a América é dos americanos”. Os Estados Unidos tornaram-se muito maior do que o grande Brasil, tendo em conta os seus territórios. O tempo mudou a regra de Veríssimo.
Alberto Morávia trilhou caminho semelhante aos trilhos de Hitchcock quando
afirmou que “em certos momentos de extre­ma indecisão, a razão, que normalmente não passa de um meio, pode tornar-se um fim”. Como todos lidam com a razão de ser, talvez seja possível proclamar que sempre somos verdadeiros, ainda quando invadamos as veredas da mentira. Até sem saber.