Quando D. Pedro I assinou a Lei Imperial de 11 de agosto de 1827, criando os cursos de ciências jurídicas e sociais em São Paulo e Recife, não só desobrigou os brasileiros de estudarem Direito na Europa, especialmente na Universidade de Coimbra, como tam­bém lançou as bases para a criação de escolas de juristas e líderes, tão necessários para a nação que nascia. São Paulo foi agraciada com sua Academia, especialmente pela tenacidade do Visconde de São Leopoldo, depois de vencer resistências que a queriam na capital do Império. Dizia-se que o português falado na cidade, sob influência do tupi-guarani, era tão ruim que contaminaria os jovens que ali estudassem.

A Academia de São Paulo foi instalada no velho Convento de São Francisco, erigido em 1647, no largo do mesmo nome e que se transformaria em território de liberdade e cidadania. As antigas arcadas do convento, circundando o pátio interno dos frades, viria a ser o símbolo não só de uma escola de juristas, como inspiração para as várias gerações que por elas passaram, aprendendo conceitos jurídicos, morais e éticos.

Desde sua inauguração em 1o de março de 1828, a Academia do Largo de São Francisco teve participação ímpar na formação do Bra­sil, sendo seus estudantes chamados para ocupar cargos de grande destaque nacional. Treze dos trinta e sete presidentes da República ali estudaram e é longa a lista de personalidades que marcaram nossa história: Ruy Barbosa, Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Álvares Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varella, José de Alencar, Monteiro Lobato, Olavo Bilac e, mais recentemente, Lygia Fagundes Telles, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Miguel Reale Jr. e tantos outros nesta relação muito incompleta.

Em 1907 foi fundado o Centro Acadêmico XI de Agosto que, junto com a Faculdade, muito colaborou e colabora pelo nosso país.

Nos anos 1930, as velhas instalações foram substituídas por novas, que mantiveram o pátio com suas arcadas, onde se reúnem os estudantes.

O 11 de agosto é muito importante para mim, pois a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco é minha alma mater. Nela me for­mei em 1964, seguindo os passos de meu avô João Rodrigues Guião, turma de 1890, e de meu pai João Palma Guião, turma de 1926.

Durante nosso curso, vivemos a renúncia do presidente Jânio Quadros ( ali formado ), a instauração do Parlamentarismo, depois revogado em plebiscito, a queda do presidente João Goulart e a Re­volução de 1964. Sentíamo-nos como responsáveis pelos destinos da Pátria e confabulávamos para encontrar soluções que permitissem ao Brasil se tornar um grande país. Nos dois últimos anos do meu curso, representei os alunos na Congregação da Faculdade e fui escolhido por concurso vice-orador do Centro Acadêmico XI de Agosto.

Após cinquenta e cinco anos de formado, dedicando-me a outra atividade a que fui levado por necessidades familiares, mas beneficia­do pela escola de vida e cidadania que a faculdade me proporcionou, continuo me encontrando mensalmente com integrantes de nossa turma. Lá estão, entre outros, Celso Lafer, ministro das Relações Ex­teriores em dois mandatos, os embaixadores Osmar Chohfi e Synésio Sampaio GoesFilho, que honraram os postos que ocuparam, o de­sembargador Maurício Vidigal, o procurador-geral do Estado de São Paulo Feres Sabino, todos capitaneados por Flávio Flores da Cunha Bierrenbach, político e ministro aposentado do Superior Tribunal Militar. E nos lembramos do verso de Paulo Bonfim, recentemente falecido: “Sempre voltamos ao lugar de onde nunca partimos”.

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