A guinada rumo ao extremismo de direita que alguns países estão experimentando, principalmente o Brasil, mostra que o convívio harmônico entre pensamentos diferentes, como deve acontecer em todos os regimes de­mocráticos está correndo perigo. O movimento Iluminista do século 18, que colocou a ciência e o ser humano no centro das decisões, se contrapondo a religião, e foi neste período em que a ciência começou a ocupar o seu lugar e as trevas por um período se dissiparam.

E o século 19 foi o período de maior progresso tecnológico da humani­dade, no entanto, apesar do progresso cientifico, a ciência não conseguiu dar as respostas que amenizassemos conflitos interiores dos seres humanos, que estão ligados aos fenômenos da espiritualidade, e com o passar do tempo os velhos dogmas religiosos se fortaleceram novamente.

O século 21, que para muitos seria o novo século da luz – escureceu. E as obscuridades começaram a comprometer o raiar do novo século, talvez por uma interpretação errônea da Bíblia, a frase: “mil anos passarão, mas de dois mil não passará”, e essa interpretação equivocada fomentou todo tipo de crendice na virada do século 20 para 21, quando algumas pessoas se suicida­ram achando que o mundo iria acabar. E com esse início sombrio, as portas do obscurantismo foram abertas, e as trevas começaram a ganhar espaço a partir da segunda década do século 21.

O julgamento da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 811, que terminou ontem dia 08/04/2021, com o placar de 9×2 pela constitucionalidade do decreto do governo do Estado de São Paulo, que na fase emergencial não permite a realização de cultos e missas, mostrou que os fundamentalistas religiosos, compostos de analfabetos funcionais, estão querendo transformar o Estado brasileiro, num Estado autocrático fundado na religião.

Eu acompanho há muito tempo as Sessões do Supremo, e o que vi ontem, nunca tinha presenciado. Um advogado bolsonarista interrompeu o voto do Ministro Alexandre de Morais, para querer defender o ministro Cássio (com K), coisa inadmissível no Estado Democrático de Direito.

Isso acontece porque o presidente de plantão age de maneira abjeta e obtusa o tempo todo. Nem as mais de quatro mil mortes diárias em decorrência da Covid 19 comovem este ser das trevas. Por falta de conhecimento jurídico, o ministro Cássio (com K), não aprofunda seus conhecimentos da Constituição, prefere seguir a Bíblia, esquecendo que estamos num Estado laico.

O Supremo já havia pacificado as questões de competências entre União, estados e municípios, no entanto o ministro Cássio (com K) contrariando a Corte concedeu uma liminar, permitido a abertura das igrejas para reali­zação dos cultos e missas, confrontando as decisões estaduais e municipais, que não permitem aglomerações em um momento em que o número de mortes e ocupação das UTIs está perto do colapso.

O que se viu na Sessão do Supremo foi uma pequena amostra do que pode acontecer se este lunático que ocupa a cadeira da Presidên­cia indicar mais ministros sem qualificação técnica para a função, mas como ele criminosamente já disse: “só vai indicar ministros terrivelmen­te evangélicos”. O Estado autocrático que este ser obtuso e abjeto quer impor ao País, não é apenas um Estado autocrático-religioso – é também um Estado autocrático-miliciano.

A liberdade religiosa que essa gente defende, evocando o inciso VI do artigo 5º da Constituição brasileira tem uma prática obscura. A liberdade de crença e religião pressupõe o respeito a outras religiões que têm matrizes diferentes. A maioria destes doutos senhores são originários do Estado do Rio de Janeiro, e neste Estado de maioria evangélica, a perseguição que seus asseclas impõem as religiões de Matriz Africana é uma vergonha, mas nesses casos vale a lei é do mais forte. Liberdade para os meus!

O ser humano precisa ser humano!