Lembram do cantor nordestino Waldick Soriano (1933-2008)? Pois é, era uma figura, caboclo simples como simples sempre foi sua vida. Ele conseguiu se destacar no cenário musical brasileiro quando neste meio só brilhavam feras como Roberto Carlos, Fagner, Chico Buarque, Milton Nascimento e outros bambas. Cantando seus boleros chamados “bregas”, ele conseguia espaço na mídia. “Eu não sou cachorro não” era música obrigatória em todos os shows.

Ele se vestia meio lambão, nada combinava na sua indumentária, mas ele não tava nem aí, até que começou a circular no meio televisivo com uma conhecida socialite. Quem era próximo do cantor afirma que a mulher deu um “banho de loja” nele, uma guinada federal. Então, passou a se apresentar nos programas da Hebe Camargo e Raul Gil com um lindo terno preto, camisa linda e gravatas italianas. Pra fechar, um belo chapéu também preto. Pronto, Waldi­ck Soriano estava nos trinques (heheheh).

Esse terno de Waldick me fez lem­brar de uma história que foi contada pelo grande artista e querido amigo de Fortaleza, Totonho Laprovitera. Ele e Fagner são super amigos também, os dois são artistas plásticos com pinturas geniais. Totonho é letrista e arquiteto, sendo dele o projeto e execução do aeroporto de Jericoacoara. Enfim, ele contou-me que Waldick foi fazer um show na cidade de Icó, no Ceará, e para se resguardar do grande assédio popular, decidiu se hospedar na vizinha Orós. Acolheu-se no Hotel Municipal que era um primor, não deixava a desejar em nada a nenhum outro da capital.

Festejado em sua chegada, Waldick foi conduzido aos seus aposen­tos. Todo mundo cobrindo-o de atenção, lhe apresentaram um roteiro turístico da cidade, e como ele estava com tempo de sobra, pois só can­taria na noite seguinte, tinha o dia todo para conhecer todos os recantos e encantos da cidade e desfrutar do carinho de seu povo.

No outro dia, antes de começar nova programação, pediu a cama­reira para passar seu alinhado terno preto. Vaidoso como ele só, até prometeu uma gorjeta, recomendou cuidados pois a roupa era de fino corte, de bom caimento e de etiqueta famosa de Sampa. Tudo organi­zado, lá foi Waldick conhecer o colossal Açude de Orós. Maneirou no birinaite, retornando ao hotel onde carinhosamente lhe prepararam um suculento tucunaré.

Quando beliscava a entrada de isca de tilápia na cerveja e sorvia um conhaque, olhou pela janela que dava pra área de serviço e surpreso viu seu precioso terno preto todo engelhado pendurado num arame de secar roupa! Na etiqueta do terno tinha uma recomendação de que a peça só poderia ser lavada a seco e a camareira, mega fã do cantor, para agradar seu ídolo, achou melhor lavar no capricho e convocou a lavadei­ra, que mandou ver no sabão.

Esfrega, esfrega e tudo mais… Deu no que deu, formou-se a maior confusão, o cantor queria porque queria que dessem um jeito no seu terno preto, mas não foi possível. Resolveram engomá-lo, o terno ficou parecendo madeira envernizada. Pra agradar o cliente, o gerente do hotel lhe ofereceu ternos dos bacanas da cidade, até do prefeito, mas, teimoso como ele era, recusou. Waldick achava que seu público do Nordeste merecia vê-lo com seu esfuziante terno preto. A direção do hotel lhe pediu mil desculpas, mas Waldick não deu mole nem perdoou ninguém.

Dizem que por pura teimosia Eurípedes Waldick Soriano se apresentou no show de Icó com o finado terno preto todo duro, só que ninguém notou nesta sua elegância, afinal de contas, eles estavam ali para ver seu ídolo e se deliciar com suas românticas canções.

Sexta conto mais.

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