As primeiras manifestações literárias uruguaias aconteceram simultane­amente ao processo de independência, iniciando-se com o poeta Bartolomé Hidalgo (1788-1822), que ficou conhecido como iniciador da corrente gauches­ca, a qual pertencem os famosos “cielitos”, estilo poético do início do século XIX no Rio da Prata, caracterizado como poesia narrativa de fábulas, divulgada por cantores nômades, similares aos trovadores europeus. Voltadas a questões e disposições sociais próximas às pessoas de quem são oriundas e para quem são emanadas, seu objetivo era garantir o orgulho e a auto-referência à linguagem única daquela região, bem como, exaltar um sentimento poético e libertário.

Conhecido como “poeta dos sem voz”, Hidalgo foi o primeiro poeta crioulo do Rio da Prata, embora pela sua origem, ofícios e estilo literário também seja considerado filho legítimo da tradição popular payadoresca – lírica simbólica dos camponeses dessa região, por ele dominada ao conse­guir se apropriar da escrita. De origem humilde, trabalhou como barbeiro, soldado e servidor público para poder sobreviver. Sua poesia, de extraordinário caráter militante, circulou em impressos avulsos entre os setores populares, os quais a memorizavam e a cantavam ao som do violão. Um exemplo, traduzido? “Se o céu é o melhor de tudo o que foi criado, deve ser a dança dos Povos da União. Céu, céu e mais céu, o céu sempre canta que a alegria é do céu, do céu é a liberdade.” De sua autoria também são o hino revolucionário “A Marcha Oriental” e “Diálogos patrióti­cos”. Um autor cuja produção literária o caracteriza como agente ativo da história do seu país.

Por sua vez, Adolfo Berro (1819-1841), integra o primeiro período do romantismo literário uruguaio, que se desenvolveu no país em meados do século XIX. Em 1839, conselheiro do Defensor de Esclavos (Slave Defender), ao tentar mitigar os in­fortúnios de quem se encontrava naquela situação, viu tal atividade intensificar sua sensibilidade humana natural. Autor de numerosos poemas, que lhe valeram a consideração dos círculos intelectuais de Montevidéu e Buenos Aires, teve os mesmos publicados postumamente, em 1842, com o título genérico de “Poesia”. Suas obras mais destacadas? São as intituladas “População de Montevidéu” e, espe­cialmente, “Liropeya”, poema escrito em 1840, que conta a lenda de uma indígena paranaense que se suicida quando seu amado, o cacique Yandubayú, é traiçoeira­mente assassinado durante as campanhas de conquista pelos espanhóis. Esta obra, inspirada em uma história original de 1602, escrita pelo espanhol Martín del Barco Centenera, motivou o músico uruguaio León Ribeiro – que era diretor do tradicional Conservatório “La Lira” de Montevidéu – a compor uma ópera em 1880, que foi apresentada no Teatro Solís em 1881.

Juan Zorrilla de San Martín (1855-1931), um dos mais conhecidos poetas uruguaios, traz uma obra que trata dos costumes de seu país e de seus heróis nacionais. Em seu poema épico “Tabaré” (1886), considerado pela crítica como o último suspiro do romantismo da literatura hispano-ame­ricana, prenunciador do modernismo, foca o destino dos índios charruas até a derrota final para os espanhóis. Nela, o amor do índio charrua Tabaré pela espanhola Blanca, ocorre durante a ocupação hispânica no Rio da Prata, por volta de 1580. Tabaré, filho do cacique charrua Caracé e da espanho­la Magdalena, recebe desta alguns preceitos cristãos antes da mesma morrer. Passados os anos, com os espanhóis novamente acampando às margens do rio San Salvador, eclode uma longa guerra entre castelhanos e charruas, dizimando a população desses últimos. Tabaré, capturado, é levado ao acampamento de D. Gonzalo, onde, conhecendo a filha deste, de olhos azuis iguais ao da mãe do mesmo, por ela se apaixona, ficando angustiado com a situação de ódio que os charruas alimentavam contra si e tal recordação. Sua mudez e afastamento de todos o faz ser tomado por louco entre os soldados espanhóis, o que acaba levando D. Gonzalo a libertá-lo. Na sequência, índios comandados por outro jovem ca­cique, Yamandú, invadem o acampamento espanhol e raptam Blanca. Tabaré encontra Yamandú e imediatamente reconhece Blanca, prestes a ser violenta­da. Lutam e Yamandú é morto. Uma vez livrada a espanhola das mãos de seu raptor, Tabaré vai restituí-la a D. Gonzalo, porém, este, supondo ser Tabaré o raptor, mata-o com sua espada. Blanca, acordando, se desespera ao ver o corpo de Tabaré.

Composta por cerca de 4500 versos, “Tabaré” é considerada a epopéia nacional uruguaia, alcan­çando notoriedade no final do século XIX e em significativa parte do século XX.