Sendo a linguagem de um autor o elemento que determina sua concepção do que seja literatura, a relação desta linguagem com seu público leitor é extremamente importante. De acordo com estudiosos, “Mario Be­nedetti nunca deixou de estar convencido de que uma das obrigações da poesia (literatura) é não esquecer os que não a leem por estarem ocupados demais em buscar algo para comer, ou em fugir de quem os persegue, ou em tentar não render-se à dor, à cadeia, as perseguições de todo tipo. Poeta dos fracos, rival das injustiças e defensor dos abandonados, Mario Benedetti sempre soube que seu lugar estava entre eles”.

Benedetti, na medida em que se mantém coerente nos pontos de vista que exprime em suas obras, destas faz uma espécie de biografia, tornando-se um escritor popular. Observando, transforma o cotidiano das pessoas comuns, devolvendo-o com suavidade e leveza. Parecendo, a primeira vista, uma conversa simples com o outro, suas palavras e temas são as palavras e os temas de todos os dias dos homens, aparência tão cotidiana que provoca identificação imediata com quem o lê.

Adotando a primeira pessoa como elemento narrador, em “La Tregua”, o prota­gonista Martín Santomé assim se apresenta em seu diário: “25 Segunda-feira, 11 de fevereiro. Faltam apenas seis meses e vinte e oito dias para que eu esteja em condições de me aposentar. Deve fazer no mínimo cinco anos que mantenho este cálculo diário de quantos dias de trabalho me restam. Verdadeiramente, preciso tanto do ócio?”. Do mesmo modo, em “Primavera com uma esquina rota”, vozes diferentes narram, sob diferentes perspectivas, as experiências e os efeitos do exílio: “Hoje estive olhando fixamente as manchas da parede. É um costume que trago de infância. Primeiro ima­ginava rostos, animais, objetos, a partir dessas manchas, depois, fabricava medos e até pânicos em relação a elas. De modo que agora é bom convertê-las em coisas ou caras e não sentir temor”.

Em “Gracias por el fuego”, o protagonista Romón Budinõ, porta-voz rebelde de uma sociedade fadada ao fracasso e marcada pelas injustiças sociais, assim se expressa: “Sim, efetivamente fica com muita raiva. Por que nunca põe a manteiga na geladeira? Prefiro comer a torrada sem nada a passar essa porcaria. Hoje a torrada tem gosto de hóstia. Não comungo desde 1929, na Igreja de Punta Carretas. Era lindo o quintalzinho da casa da vovó. Dali se via o fundo da igreja e também o fundo da carvoaria O Bom Trato. Os padres jogando futebol, com as batinas tão arregaçadas que pareciam uns bombachudos. Os padres jogando futebol e os assaltantes fugindo da Penitenciária. O poder e a glória. Carne e Espírito. Deus e o Diabo”. Por sua vez, em “La borra de café”, encontramos as descobertas da infância e da adolescência pela narração irônica e descontraída do personagem Claudio: “A casa da rua Capurro tinha um cheiro estranho. Segundo meu pai, cheirava jasmim; segundo minha mãe, a ratos. É provável que esse conflito tenha desorganizado minha capacidade olfativa por várias décadas, durante as quais não podia distinguir entre o perfume de violetas e o cheiro de açafrão, ou entre a emanação da cebola e o vácuo das inalações”.

Em “¿Quién de nosotros?”, uma mesma histó­ria, contada por três protagonistas distintos (Alicia, Miguel e Lucas), ao trazer, por meio do diário da personagem Miguel, a versão deste sobre o relatar a si mesmo, assim se configura: “Muitas vezes me perguntei nesse caderno sobre mim mesmo. A estrita verdade é que fui limitando minhas aspirações. Houve um tempo em que me julguei inteligente, bastante inteligente; era quando obtinha notas incríveis no colégio e meus pais suspendiam por um momento seu insolúvel conflito para se entreolharem satisfeitos e me abraçar, conscientes de que eu estava no caminho para me tornar um bom investimento”.

O que se verifica nessa prática? A utilização, por Benedetti, de uma técnica narra­tiva iniciada no romance.

Contemporâneo (a técnica do Contraponto, inaugurada pelo escritor inglês Aldous Huxley). Nela, a primeira pessoa do romance é favorecida a partir do desapa­recimento, ou ofuscamento, do narrador, com o leitor, além de receber a história de diferentes pontos de vista, também tendo acesso a uma rica simultaneidade de tempos e espaços distintos no romance. Os motivos que fazem o autor escolher o “eu” narra­tivo? Colocar seus personagens narradores em diálogo com o mundo, seja buscando respostas e soluções para seus conflitos internos, seja compartilhando, com o leitor, as certezas nunca duradouras sobre ele mesmo, a vida e o mundo. Em suma, um convite do autor para que seu leitor adentre seu texto, complete-o e o ressignifique.