Obras refletem a luta interna de Van Gogh

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Por Antonio Gonçalves Filho

Na polêmica biografia da dupla Steven Naifeh e Gregory White Smith (Van Gogh, Companhia das Letras, 2012), Van Gogh surge como um homem desesperado, de vida desregrada, sempre à beira de um colapso – o que ajudou a criar o mito do inadaptado social, do suicida. No entanto, a dupla de biógrafos, amparada em pesquisas que remontam à visita feita na década de 1930 pelo historiador John Rewald a Auvers, cidade francesa onde o pintor holandês morreu, afirma categoricamente que Van Gogh não se matou. Ele teria sido vítima de um adolescente agressivo, René Secrétan, fã de Bufallo Bill, que costumava infernizar a vida do pintor quando ele se retirava para o campo com suas tintas e telas.

Foi a arma de Secrétan que atingiu Van Gogh, intencionalmente ou não. Van Gogh, filho primogênito de um pastor protestante, sempre dizia que o suicídio era uma “covardia moral”, o que não impede que, no auge do desespero, possa ter pensando nele. Porém, argumentam seus biógrafos, o gesto de Secrétan foi recebido por Van Gogh como sua libertação, ainda que de forma violenta. Difícil comprovar. Os diretores do Museu Van Gogh, na época do lançamento da biografia, consideraram pouco provável a tese de Naifeh e White Smith.

Uma coisa, porém, é certa: Van Gogh cortou a orelha numa de suas crises. Poderia ter avançado, mas parou por aí. Covardia moral? Pode ser. Seus biógrafos aventam a hipótese de que o comportamento um tanto excêntrico de Van Gogh tinha como origem sua epilepsia. Havia algo de estranhamente sagrado em sua doença Era quase como um passaporte do pintor para estados alterados, em que desenvolvia por osmose um aprendizado autodidata da natureza e da arte dos pintores que amava (Millet, em particular).

Os biógrafos recorrem às cartas trocadas entre Van Gogh e seu irmão Theo em busca de uma resposta para seu comportamento maníaco – e também para mostrar que o talento pictórico de Van Gogh tinha uma estreita ligação com criação literária, sendo o pintor um leitor de escritores como Zola, um autor amigo de pintores e igualmente defensor desse diálogo. O uso um tanto brutal e primitivo das cores tinha algo da rudeza de Zola: o amarelo tanto podia refletir a vida luminosa em Arles como uma xantopsia patológica; o azul não era uma cor tranquilizadora, mas anunciadora de tempestades e tradutora da natureza hostil. Elas refletem as contradições e a luta interna de Van Gogh para superar suas carências. Rejeitado pela família, dominado pelas mulheres, renegado pelo melhor amigo, Gauguin, só a pintura o salvou das perdas emocionais. E ela sobreviveu.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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