Há poucas semanas, o 50º aniversário do primeiro homem pisando na Lua ocupou as manchetes dos principais veículos de comunicação. Em 1969 eu, com apenas 12 anos de idade, reservei meu lugar na casa de minha tia para assistir aquele espetáculo, já que nossa primeira televisão só foi possível no ano seguinte, em agosto de 1970. Maravilhados assistimos ao que muitos adultos chamavam de verdadeiro “milagre”! Em preto e branco, porque ainda não havia televisão em cores.

Ao comentarmos o assunto, os mais velhos riam de nós. Muitos deles devem ter morrido sem acreditar que realmente três homens tenham chegado e desembarcado na Lua. Mas foi o que assistimos na televisão. Cheios de esperança de no­vas conquistas, nós, os adolescentes e jovens daquela época, sonhávamos com investimentos óbvios em políticas públicas, que seguramente garantiriam melhor qualidade de vida aos cidadãos de nosso Planeta Terra! Já que o homem conquistara a Lua, gastando trilhões de dólares, como não investir outros tantos trilhões de dólares em pesquisas em favor dos habitan­tes da Terra?

Passados 50 anos, celebrar o primeiro pouso do homem na Lua traz consigo uma série de questionamentos, porque o encontro do segundo com o terceiro milênio, ao invés de novas conquistas em favor da dignidade humana, desenhou um panorama confuso que promoveu uma triste “cultura de sobrevivência”. Proliferação de pandemias; bilhões de pessoas passando fome no mundo todos os dias; desigualdades eco­nômicas e sociais desmedidas, principalmente entre gover­nantes e governados; educação em declínio; saúde sucateada; infraestrutura,. quando existente, precária; criminalidade ascendente… Entre tantas outras incontáveis carências básicas de mais de sete bilhões de pessoas no mundo, submetidas a viverem como “bichinhos” maltratados. Enquanto nossa Suprema Corte decide que “animal não é coisa”, coisifica e animaliza-se a pessoa.

Ambos, pessoas e animais, são, segundo nossa fé, criatu­ras de Deus. As criaturas humanas, porém, são as prediletas. Respeitando toda a criação, nada justifica que vidas humanas sejam ceifadas diariamente por falta de segurança pública, por falta de maior compromisso de nossos governos para com a promoção da dignidade das pessoas. Dos trilhões de dólares que circulam diariamente pelo mundo, quantos deles são mal aplicados, desviados de suas verdadeiras finalidades, embolsados por um pequeno grupo de “espertos”, facilmente privilegiados por Supremas Cortes que se endeusam sobre os “fracos” e se enfraquecem diante dos “fortes”?

Os 50 anos do pouso do homem na Lua deve ser celebra­do, sim. Trata-se de uma conquista magnífica. Mas não nos incomoda a audácia de querermos conquistar o espaço do Universo, sem antes investirmos recursos semelhantes na promoção de maior qualidade de vida e fundamental digni­dade dos habitantes da Terra? Já se fala de pessoas querendo ir à Lua numa “viagem sem volta”. Como seria bom vivermos com os pés na Terra, se todos assumíssemos o compromisso de zelar mais por esta “nossa casa comum”!

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