Jornal Tribuna Ribeirão

Os Desafios de Estudar a Percepção de Tempo (2): Há um relógio interno no sujeito humano?

Os estudiosos da percepção de tempo têm se dividido sobre a existência, ou não, de um, ou vários, relógio(s) interno(s), ou se não há nenhum. Sabemos que somos hábeis em sincronizar nossas ações e fazer julgamentos precisos sobre o tempo. Um exemplo? Se a luz de um semáforo atrasa na mudança vermelha para verde, nós não necessitamos, em algum momento, iniciar uma cronometragem explícita do mesmo, pois, por intuição, sabemos que há, de fato, um atraso. Essa impressão do atraso necessariamente tem de ser o produto de um mecanismo que permite a mensuração do tempo. Para a descri­ção desses mecanismos torna-se importante saber que o registro do tempo depende, a rigor, de qual tipo de experiência de tempo nós queremos descrever ou entender. Se queremos considerar retrospec­tivamente a duração de uma atividade, será necessário nos referir aos mecanismos mnemônicos, se, todavia, nos basearmos num relógio interno. Por outro lado, aqueles interessados no tempo prospectivo, e na percepção de intervalos muito longos, que tomam vários segundos, poderão se basear em explicações que levam em consideração os processos cognitivos, sem, todavia, evocar a contribuição potencial de um relógio biológico interno.

A literatura da percepção do tempo é repleta de modelos, sendo, um deles, um modelo que sustenta a existência de um modelo de relógio interno. Essencialmente, esse modelo é baseado na ideia de que um marca passo fornece pulsações, as quais, acumuladas, formam a base para se fazer julgamento sobre a passagem do tempo. Por que essa ideia é interessante? Expliquemos. Todos nós podemos estimar a diferença entre um som de 200 ms e outro de 400 ms, e distinguir sons de 200 ms e de 250 ms é algo fácil para as pessoas. Todavia, distinguir sons de 200 ms e 205 ms não é tarefa que possa ser facilmente feita. Por que? Porque para cada pessoa há uma zona onde a diferença entre sons é geralmente suficiente para determinar qual deles é maior, mas, onde essa diferença é algumas vezes insuficiente, tal zona depende das capacidades pessoais de cada um.

Então, estabelece-se a questão: Por que algumas vezes nós come­temos erros de julgamento, dado que, na maioria das vezes, isso não acontece? Porque entendemos que, com tal marca passo, a acumulação dos pulsos, no mecanismo contador, determina a duração percebida de um dado intervalo. Neste caso, os erros de estimação temporal são cometidos se a contagem exata entre os pulsos discretos é aleatória. Portanto, o marca passo será uma fonte de erros. Assim, se nós codificamos que um intervalo de tempo físico corresponde a uma acumulação média de 20 pulsos, e que, durante uma tentativa seguinte, para o mesmo intervalo, nós poderíamos acumular 18, 19, 21 ou 22 de tal pulso por causa da variabilidade do marca passo, o tempo não será percebido como sendo o mesmo. Ou seja, a duração percebida poderá ser vista como um pouco maior ou um pouco menor. Ademais, não se pode excluir totalmente que o contador seja uma fonte de erros nas atividades envolvendo cronometragem.

Outra maneira de entender a percepção de tempo é considerá-la dentro da perspectiva do proces­samento de informação. Nessa perspectiva, as fontes de erros são localizadas apenas no nível do relógio interno das pessoas que fazem julgamentos das durações temporais, levando em consideração o mar­ca-passo individual, os níveis de processos mnemônicos e a tomada de decisão. Dentro do processo do relógio interno, há um componente cognitivo: a acumulação dos pulsos está sob o controle da atenção. Assim considerando, é necessário relembrar que, quanto mais atenção é dada ao tempo, tanto mais o tempo será percebido como maior. Não obstante, há uma parte dos erros de julgamentos cometidos nas tarefas de estimativas de duração temporal que está localizada em dois outros níveis. Desse modo, os erros poderiam ser explicados, parcialmente, pelos mecanismos imperfeitos de memória envolvidos nessas estimativas e por certa variância, dentro do processo de tomada de decisão, no momento de fazer uma comparação entre o intervalo a ser estimado e aquele que é retido na memória.

Também é importante mencionar que, se a tarefa temporal contém uma comparação direta de um intervalo padrão, e um intervalo de comparação, podem ocorrer alguns erros sistemáticos que são conectados à ordem temporal dos intervalos a serem estimados. De modo similar, a representação interna do intervalo padrão, para uma dada tentativa de julgamento, não é independente das tentativas precedentes, de maneira que esta representação pode ser construída ao longo do curso de tentativas durante o experi­mento envolvendo tarefas de estimativas temporais. A despeito da controvérsia acerca da existência de um relógio interno en­volvido no processo de julgamentos temporais, a sua suposição tem permitido aos estudiosos explicarem a variedade enorme de fenômenos observados no laboratório, especialmente quando este relógio interno é apresentado dentro da perspectiva da abordagem do processamento de informação. É plausível aceitar a hipótese de que haja tal relógio interno, mas é também possível que ele não seja o único mecanismo à disposição do cérebro humano para fazer julgamentos sobre o tempo.

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