Os desafios de estudar o Amor (1): Raízes Filosóficas

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O que é o Amor? Seria a mesma coisa para todas as pessoas? Ou diferentes coisas para diferentes pessoas? A rigor, para muitas pessoas, o Amor é a coisa mais importante de suas vidas. Muitos de nós temos o Amor de nossa família de origem, mas sempre queremos algo a mais – achar o amor de nossa vida, a pessoa com a qual esperamos sermos felizes o restante de nossas vidas. Mesmo as pessoas que são orientadas em direção a outros empreendimen­tos, tais como carreira, viagens, esporte, academias e outros tipos de aventuras, buscam o Amor para enriquecer e transformar suas vidas. Amor, portanto, se mostra vital não apenas para nossa plenitude, mas, também, para a pro­pagação de futuras gerações. Ao menos para nós, humanos, sem Amor o futuro da espécie humana seria realmente sombrio e comprometido. Mesmo se os casais produzissem crianças sob condições faltando Amor, crescer sem Amor seria uma desgraça para muitas dessas crianças que viveriam de forma infeliz e poderia comprometer até mesmo o futuro de todos nós. Não há uma única e correta abordagem para estudar o Amor. Estudiosos do Amor têm considerado, em diferentes períodos e lugares, uma variedade de enfoques para entender o que é o Amor.

Talvez a mais antiga abordagem para entender a natureza do Amor tenha sido através da Filosofia. Platão, por exemplo, devotou muito de seu diálogo Symposium para considerar as diferentes concepções do Amor. Phaedrus, por exemplo, notou como os amantes podem sacrificar suas vidas para o Amor. O Amor ao qual ele se refere veio a se chamar ágape, um tipo de Amor sacrificante onde alguém coloca o bem estar de um dos amantes à frente do seu próprio bem-estar. Pausanias distingue entre o Amor Terrestre e o Amor Celestial. Amor Celestial enfatiza o intelecto e o comprometimento duradouro, ao passo que o Amor Terrestre é mais lascivo. Tal Amor Celestial veio a ser chamado storge por alguns teóricos; já o Amor Terrestre veio a ser chamado eros. Esses construtor mantém-se na literatura até os dias de hoje. A grande vantagem da aborda­gem filosófica é que ela nos traz algumas das melhores mentes da história humana, tais como Platão e Aristóteles, os quais procuraram entender a natureza do Amor. Outra abordagem é a literária. Provavelmente, nenhum tópico, ou constructo psicológico, tenha atraído tanta atenção na literatura quanto tem sido o termo Amor. Literatura tem tido imenso efeito sobre o nosso entendimento do assunto. Todos conhecem a obra de Shakespeare, Romeu e Julieta, que, talvez, seja a mais influente no pensamento ocidental sobre o Amor. Já a obra do colombiano Gabriel García Marques, O amor nos tempos do cólera, que narra a história do amor entre Florentizo Ariza e Fermina Darza em um perí­odo em que a América Central convivia com a epidemia devastadora do cólera, possa ser mais apropriada.

A literatura ajuda-nos a entender não apenas o Amor mas, também, as forças que podem determinar e destruir o Amor: tradições familiares, dificuldades econômicas, objetivos incompatíveis na vida, desafios, inabilidade para controlar as reações psicológi­cas do amado ou outras emoções negativas, entre outras. Vendo aspectos de nós próprios nos outros, através da literatura, podemos nos ajudar a verificar o que poderíamos fazer para tornar o amor mais bem sucedido, bem como, o que não deveríamos fazer. Uma abordagem comportamental que procura entender os antecedentes do Amor é a baseada na Teoria do Reforçamento, que busca explicar o comportamento através dos padrões de recompensa e punições ambientais. Também a Teoria da Consistência Cognitiva susten­ta que as pessoas esforçam-se para manter suas cognições psicologicamente consistentes. Quando estas últimas tornam-se inconsistentes, as pessoas tentam restaurar a consis­tência. Um exemplo? Se uma mulher sente que seu marido a trata bem, mas é cruel com os colegas de trabalho dos quais ela gosta, ela pode considerar como inconsistente tais formas de querer bem. Daí busca restaurar a consistência entre ambos comportamentos, buscando equilíbrio.

Outra teoria que teve grande impacto na maneira que entendemos o Amor foi a encabeçada por Freud, que concebia o Amor em termos da sexualidade sublimada. Porque somos limitados pelas convenções sociais em nos­sas possibilidades sexuais com outrem. Devemos lembrar, todavia, que Freud viveu na Era Vitoriana, época com valores e atitudes em relação a Amor e Sexo muito diferentes das que imperam atualmente. Por sua vez, o psicanalista americano Abraham Harold Maslow sugeriu que há duas formas distintas de Amor: Amor-D e Amor-B. Amor-D é o amor deficiente, que surge das necessidades das pessoas para segurança e pertencimento, espelhando as deficiências que encontramos em nós mesmos. Através do amante, nós tentamos compensar o que achamos inadequado em nós próprios. O Amor-D é o que se origina do desejo da pessoa para autorealizar-se, isto é, completar-se, a si mesma, como seres humanos. Na realidade, a maioria dos tipos de amor provavelmente representa alguma combinação de ambos.

Uma questão que invariavelmente surge em qualquer contexto amoroso é “Quando estou amando?”. Várias concepções existem para responder tal dúvida. E destas, muitas serão aqui abordadas para tentarmos explicar o mesmo. Por hora, entendamos o Amor assim: (1º) o Amor acontece quando gostamos de uma pessoa excessiva­mente, (2º) Amar é muito diferente de gostar, mas ocorre em seguida a este; (3º) Gostar e Amar têm pouquíssimo em comum, uma vez que são construtos distintos que se relacionam, e (4º) Gostar e Amar são construtos que têm grande similaridades entre si, isto é, gostar usualmente constitui, embora nem sempre, uma parte do Amor; mas Amor tipicamente não constitui uma parte do gostar. Talvez possamos adotar essa última concepção.

Por que, então, filósofos, escritores, psicólogos, psicanalistas e outros dedicam tanto tempo e esforço tentando entender o fenômeno do Amor? No meu entendimento, porque o Amor é importante não apenas para essas pesso­as mas, também, para você. Convido-os a acompanhar esta série sobre o Amor neste espaço do Tribuna.

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