No fim dos anos 90, a dor veio a ser considerada como um “quinto sinal vital” na literatura mé­dica. Seu registro rotineiro, após a temperatura, pulsação, pressão arterial e respiração, constitui-se numa imprescindível responsabilidade clínica para minorar, adequadamente, o sofrimento dos pa­cientes de quaisquer condições clínicas. Usualmente baseada nos registros verbais ou nos descritores comumente usados pelos pacientes para descreverem a dor que estão vivenciando naquele momen­to, sua avaliação é pessoal e subjetiva, podendo ser sentida apenas pelo sofredor. A auto-avaliação, promovida por este, é, portanto, o indicador mais confiável da existência e da intensidade da dor, complementado pelo uso de escalas para melhor controla-la e manejá-la.

Há as escalas unidimensionais que cujo objetivo principal é mensurar especificamente a mag­nitude da intensidade da dor. Nestas escalas os pacientes com dor estimam o grau de sua dor numa escala, usualmente, de 0 a 10, onde 0 é sem dor e 10 a pior dor possível. Pode-se, também, numa mesma escala combinar descritores da dor, por exemplo, dor branda, dor moderada, dor severa, com pontuações numéricas ou mesmo com diferentes expressões faciais refletindo diferentes gra­duações de dor. Há também as escalas multidimensionais que avaliam várias facetas da dor além de seucomponente sensorial, tais como, as funções, ou seja, as interferências da dor nas atividades cotidianas da pessoa com dor: sono, apetite, atividades sociais, recreativas, emoções, depressão, an­siedade, medo, angústia e outras similares.

A área de medicina (ou especialidades) da dor pode ser dividida, grosso modo, em diferentes especialidades, tais como: dor neuropática, dor em ginecologia, dor em otorrinolaringologia, dor em ortopedia, dor em pediatria, dor em oncologia, dor em cuidados paliativos, farmacologia, fisio­logia e muitas outras condições clínicas. Há também estudiosos da dor em Psicologia, Fisioterapia, Enfermagem, Terapia Ocupacional, Nutrição, Educação Física, Fonoaudiologia. Há também físicos que estudam os feitos da realidade virtual como uma técnica para tratamento e alívio da dor. Dor é um tema que interessa a um grande número de estudiosos. Certamente, uma avaliação global da dor envolve necessariamente uma análise geral da pessoa com dor.

É necessário uma anamnese completa considerando fatores físicos, psicológicos, comportamen­tais, emocionais, motivacionais de personalidade, sociais, econômicos e familiares do paciente. Sem dúvida a avaliação usando uma escala ou questionário de dor torna-se muito importante para no ambiente clínico, pois torna-se impossível manipular um problema desta natureza sem ter uma medida sobre a qual basear o tratamento ou a conduta terapêutica. Sem tal medida, torna-se difícil determinar se um tratamento prescrito é necessário, eficaz, ou, até mesmo, quando deve ser inter­rompido. Com uma mensuração da dor apropriada torna-se possível determinar se os riscos de um dado tratamento superam os danos causados pelo problema clínico e, também, permite-se escolher qual é o melhor e o mais seguro entre diferentes tipos de conduta terapêutica.

Assim considerando, a partir do exame clínico global usando as técnicas médicas atuais, bem como, uma avaliação das diferentes dimensões da dor tornam-se importantes para avaliar com precisão o grau de dor de uma condição clínica. Então, a partir desta avaliação, deste diagnóstico, busca-se, com a colaboração do paciente e da família do mesmo, a conduta terapêutica mais apro­priada que pode ser medicamentosa ou biocomportamental, aliando-se fisioterapia, psicoterapia e até mesmo terapia nutricional. As técnicas de analgesias combinadas são usualmente consideradas no contexto clínico-hospitalar. O registro rotineiro da dor em qualquer contexto clínico-hospitalar poderá constituir-se numa atitude extremamente importante visando minimizar, reduzir ou mes­mo eliminar o sofrimento do paciente com dor.

Por causa disso, o uso de escalas de mensuração de dor, especialmente, em suas dimensões sensoriais, afetivas e cognitivas, tem sido incorporada em variados contextos clínicos, tornan­do muitas destas escalas populares para diferentes profissionais da saúde que freqüentemente usam-nas para avaliar a dor. O uso das escalas e o próprio processo de considerar a dor como um quinto sinal vital que deve ser invariavelmente mensurado de alguma forma, tem ajudado no processo de educar os clínicos para tornar visível um sintoma/sinal ou indicador que apa­rentemente parece invisível.

Cada condição clínica, mesmo a dor, tem suas características sensoriais e emocionais específicas. Todas podem ser de alguma forma mensuradas. Supostamente entende-se que a dor física, aquela que tem um estímulo físico particular provocada por lesão, estímulo quente, frio, ou qualquer outro que cause dor, e a dor social, emocional, aquela que não é provocada por um estímulo nociceptivo específico, teriam substratos neurais totalmente independentes. A literatura científica, ao contrário, tem revelado que ambos os tipos de dores, a física e a social, imageam as mesmas áreas cerebrais, ou seja, têm os mesmos substratos neurais. Ademais, procedimentos terapêuticos que controlam, au­mentam ou reduzem-nas são muito similares. Em outras palavras, há uma homologia entre ambos os tipos de dores. Este fato tem grandes implicações para o desenvolvimento de medicamentos, bem como, para terapias que visam controlá-las.

Atualmente entende-se que a dor crônica, considerada como uma doença particular, pode me­lhor ser entendida e manejada quando entendemos os seus mecanismos e os seus processos. A dor crônica é definida como a dor que usualmente permanece ou persiste por mais 3 a 6 meses.
Tratá-la envolve uma equipe multidisciplinar e vários procedimentos terapêuticos têm sido considerados na conduta terapêutica. Ela é complexa e multifacetada. Importante, para finalizar, e considerando que por sua natureza subjetiva, a sensação de dor não pode ser objetivamente determinada por instru­mentos físicos que usualmente, mensuram diretamente o peso corporal, a temperatura, a altura, a pressão arterial e a pulsação. Todavia, as escalas de mensuração e avaliação de dor além de contri­buir substancialmente para o tratamento adequado do paciente com dor, permite também fazer um melhor acompanhamento e análise dos mecanismos de ação de diferentes drogas analgésicas.

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