Jornal Tribuna Ribeirão

Por trás da canga

E novamente lá estávamos. Nem parece, mas havia se passa­do um ano. Eu e minha primeira-dama na Praia do Indaiá, em Caraguatatuba, quiosque 33. Entre dezenas de árvores sete copas, desfruto da sombra de uma que mais parece um camarote. À minha frente, além do mar, assisto o desfilar de pessoas botando o esqueleto pra se exercitar, crianças numa alegria sem igual, algumas festejando sua primeira vez no mar. Dali vejo também parte da famosíssima “Ilhabela”.

A refrescante sombra da minha sete copas cobre um raio enorme e nela abriga várias famílias. Peguei a manha de sua sombra, chego bem cedo pra ter o direito de escolher onde vou passar o dia. Os jo­vens que trabalham no quiosque são os mesmos dos anos anteriores e isso facilita o atendimento, sei o nome de todos e eles até decora­ram o que gosto de pedir.

Minha sete copas, este ano toda vaidosa, nos exibia suas folhas verdinhas. Muita chuva meses antes, disse o dono do quiosque. Minha felicidade de estar mais uma vez ali estava estampada em meu rosto e em meu bom humor. Estava me sentindo do jeito que escreveu o poetinha Vinicius de Moraes em seu maravilhoso samba “Tarde em Itapuã”, em parceria com Toquinho, “um velho calção de banho, o dia pra vadiar, um mar que não tem tamanho, um arco-íris no ar”.

Só sei que tudo isso eu estava vivendo, e ali ia montar o meu boteco que costumo abrir depois de uma hora de caminhada respi­rando a deliciosa brisa do mar. Entra ano, sai ano e costumo prosear com Airton, que está no mesmo lugar faz três décadas, vendendo milho cozido. É o nosso homem do tempo, só de sentir o vento ele dá sua previsão e acerta na mosca.

Fiz amizade com uma enorme família de São José dos Campos, tro­camos cervejas e uma deliciosa resenha animava nosso papo. Um deles observava dois homens sozinhos numa enorme barraca e comentou: “A gente podia ir até eles e, falando sério, dizer que somos do MSB (Movimento dos Sem Barracas) e que íamos invadir sua barraca”.

Coube a mim o sambarilove. O homem mais velho subiu nas ta­mancas e disse: “Aqui ninguém vai invadir”. Eu disse que íamos sim, daí mostrei a galera que gritava e pulava segurando cadeiras e cooler e emendei: “Tá vendo? Só estão esperando um sinal meu”. Pisquei para o homem mais novo, que entendeu ser uma brincadeira, daí ele disse: “Pai, a coisa é séria, eles vão invadir mesmo”.

O velho jogou o que tinha na mão na areia e disse: “Vou até o apartamento e volto já, vou fazer um arregaço aqui”. O filho que conhece bem o pai, tratou logo de acalmar seu velho dizendo não passar de uma simples brincadeira. Os novos amigos se aproxima­ram rindo muito e brindamos com aquela geladinha.

Como sou mestre em fazer amizades, conhecemos um casal de Marília, Ferrari e Lúcia, os dois sempre bem humorados. Ele de tudo fazia uma piada, só sei que foram dias maravilhosos, eu e Ferrari numa resenha sem fim, beliscos, jiló fatiado com shoyu e cerveja.

Num daqueles belos dias, Vinícius, um jovem garçom sempre antenado, chamou nossa atenção perguntando se tínhamos visto uma moça tomando sol com aquelas fitinhas pretas no lugar do biquíni pra deixar marquinhas do bronzeado. Olhei pro Ferrari e juntos falamos: “Opa!!! Novidades na área…”

De olho no lance, vimos a moça deitada com duas assessoras con­trolando o tempo de bronzeamento. Ficamos à espera do momento de ela se levantar pra conferirmos o material. De repente, Vinicius gritou “atenção”. Quando olhamos, duas enormes mulheres sentaram bem na nossa frente, parecia uma barreira na hora da falta. A moça levantou-se e perdemos o gol, pois as assessoras a cobriram com uma canga.

Vinicius, pra nos consolar, disse: “Buenão, foi propaganda enganosa, pois a moça não era lá essas coisas”. Eu e Ferrari xingamos mais que o Murici, quando uma “idosa” entrou na sua frente encobrindo uma moça de fio dental na praia lhe atrapalhando o visual (hehehe).

Sexta conto mais.

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