Porta dos Fundos

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Como cristão, sinto-me alcançado pelas ofensas a Cristo como a mim mesmo. Os ataques sacrílegos à pessoa de Cristo não são novidade. Desde o nascimento de Cristo foi sinal de contradição: amado e odiado. Herodes sentiu-se ameaçado pelo recém-nascido. Não conseguindo matá-lo, decidiu exterminar todas as crianças de Belém e da redondeza.

O ódio gratuito contra Cristo culminou em frente a Póncio Pilatos com a gritaria da turba instigada pelo establishment religio­so-político da época. Antes de crucificá-lo, foi caluniado, ironizado, torturado, recebeu bofetada, cusparada na cara… Ao longo dos séculos continua sendo sinal de contradição, amado e odiado em sua figura histórica e nos seus seguidores, sempre perseguidos, odiados martirizados até o momento presente.

Cristo é símbolo da verdade, ou melhor, ele é a própria verdade, sempre ocultada e negada pela cegueira humana. Ele é o próprio amor substituído pelo egoísmo humano que é a negação do próprio amor. O Porta dos Fundos ofende, mas não surpreende. Mesmo vivendo num país de cultura cristã, sofremos da eterna dicotomia do conflito entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, a paz e a guerra.

A ofensa a Cristo nos atingem até como pessoas humanas, por isso devemos refletir sobre as causas próximas que promovem esses fatos sacrílegos. Já São Paulo diz que o nome de Deus é blasfemado por culpa dos cristãos. A isso faz eco a frase de Karl Marx quando se refere à religião como o ópio dos povos.

É possível confutar São Paulo e Karl Marx? Quando o cristão ou a religião troca Deus pelo ego ou por interesse político-econômico passa a adorar um ídolo. A religião, então, torna-se fonte de riqueza para efêmera euforia do povo devoto que perde seu senso crítico e imerge na alienação. A blasfêmia e a revolta não são mais contra Deus, mas contra o ídolo vestido de deus, o nome dele é blasfemado e a religião se torna ópio dos povos, idolatria. Não mais adoração ao Deus vivo de Jesus Cristo.

Do ídolo espera-se bem-estar, riqueza e prazeres, milagres. Veja a ideologia da teologia da prosperidade. Com o deus-ego tudo torna­-se lícito, até a profanação do santuário sagrado do corpo da mulher ou da criança (pedofilia). Quando a política se instala em forma de teocracia, divulga mentiras e ódio, elogia a ditadura e o extermínio do diferente. Quando a política privilegia uma pequena oligarquia e condena ao desemprego e a fome a maioria, está preparando uma bomba relógio que antes ou depois deflagra em destruição e guerra como aconteceu ao longo da história e recentemente no Chile.

A turba enfurece contra santuários e imagens sagradas como se fossem causa da miséria, da violência sexual praticada contra mulheres e crianças com o aval tácito do ditador. Veja a amizade de Pinochet e o sacerdote predador Karadima. Miséria, violência e guerras não são do verdadeiro Deus, mas da idolatria do dinheiro, da ganância, hegemonia do egoísmo e prazer vestidos de religio­sidade. Contra isso surge a teologia da libertação, que respeitando templos e imagens, reconhece que o verdadeiro templo de Deus é a pessoa humana, que deve ser amparada e não crucificada, pois quando se persegue ou se crucifica o homem é a Cristo que estamos novamente crucificando sobre todos os gólgotas da terra: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”.

O Porta dos Fundos deve ser um alerta para os cristãos a viver o verdadeiro cristianismo e não uma falsa religiosidade devocional alienante e separada do próximo. Religião, “ópio dos povos” é quan­do vive abraçada ao déspota para oprimir o povo. É quando se foca só o assistencialismo sem procurar a causa da violência, da miséria e nada fazer contra isso É isso que provoca a blasfêmia e a sacrílega Porta dos Fundos. Mais cedo ou mais tarde, explode em revolta e destruição, como no Chile.

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