Um dia eu vou embora desta terra, terei meu ranchinho na beira da Lagoa, bem pequenino, um fogão a lenha, um quartinho, um rádio, um cachorro sonolento e nunca mais sair de lá.
Acordar às 4 da matina, ferver uma água, passar um café, abrir uma garrafa de vinho tinto seco, uma caneca de alu­mínio, jogar um naco de carne na trempe, ficar esperando o dia amanhecer na Serra. Cuidar de uma pequena horta, com couve, rabanete, tomate, “Ora Pró Nobis”, rúcula, pimenta malagueta verde e vermelha.

Esperar o dia passar, colocar umas varas na beira do Lago, para uma fritada de Lambaris, ficar ouvindo rádio o dia todo. Jogar o celular fora, vez ou outra ir ao armazém do senhor Nico, tomar um trago, jogar uma sinuca e derrubar conversa fora, só falando de assuntos sem importância, futebol, políti­ca, pescaria e “coisas que agente não entende nada”. Retornar com umas linguiças, banha de porco, carne seca, paio, lombo, costela, retornar somente 30 dias depois, para pagar.

Meu sonho e vou realizar.

Esticar a rede, abrir um Pessoa, um Drummond, um Pound, um Rosa, ou simplesmente, olhar o céu azul de manto celestial imponderável, ou apenas ouvir o canto do Sabiá Laranjeira, bicando a fruta do dia.

Ao entardecer, observar o sol se escondendo entre os arvoredos, se disfarçando em Lua, sentir o calafrio do vento calmo da noite chegando, acender o fogão, pensar no jantar, cortar arquitetonicamente as batatas, cebo­las, cenouras e na outra trempe fumegante, a frigideira, a banha de porco o alho e a fumaça brotando em cheiros, odores e a felicidade de estar apenas contigo, jogar meio copo da cachaça mineira, o fogo e em chamas querendo subir aos céus, o álcool se dissipando, deixando apenas o cheiro da cana verdinha se perdendo de vista.

Uma pimenta malagueta verde, uma farinha de mandioca e a mistura dos legumes. Às seis
horas o Rádio clamando pelo “Angelus”, comunicando sempre aos católicos o momento da Anunciação – feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria – da concepção de Jesus Cristo, Sorver com calma a ração des­tinada aos homens, depois, sentar na cadeira de balanço e ficar pensando sobre o passado, sobre as realizações e respirar profundamente, feliz sobre a importância de existir e ser você, só, puro, realizado com a certeza de nunca ter perdido o seu tempo em defender calhordas, facínoras, genocidas e usurpa­dores de sonhos e destruidores do belo.

Agora é descansar. Boa noite!
Sei que amanhã, quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga

Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais
Sei que amanhã, quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora…

“Nelson Cavaquinho e Guilherme e brito”