O ano de 2018, seguindo a sina de todos os que o antecederam, foi embora, deixando – como todos os demais – um saldo de alegrias e de tristezas; motivos para ser lembrado ou, igualmente, esquecido. Foi um ano no qual, em decorrência das disputas políticas, os nervos estiveram à flor da pele, pois nunca as paixões estiveram tão exacerbadas.

De qualquer forma – embora os tempos estejam hostis às manifesta­ções de sensibilidade – sempre há lugar para a poesia, ainda mais quando ela vem expressa na sensibilidade de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.
Na sua “Receita de Ano Novo” – que já tive oportunidade de trans­crever em ocas
iões anteriores – Drummond mostra como é importante cada um de nós fazer por merecê-lo; não bastam, entretanto, apenas intenções se essas intenções não estiverem lastreadas em atos concretos de amizade, lealdade e, sobretudo, de respeito ao próximo.

Trata-se de uma receita, além do mais, atemporal, válida para todo e qualquer inicio de ano, perene como qualquer texto bem escrito:

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

Enfim, 2018 passou e já é passado; como a gente vive no pre­sente cabe-nos encarar a realidade de um novo ano que poderá ser melhor ou pior mas, jamais, será igual, pois cada ano possui pecu­liaridades próprias e indefiníveis.

Vivamos, pois, do modo como pudermos, 2019 e sejamos – na medida do possível – felizes!!!

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