Por Antonio Gonçalves Filho

A importância da artista mineira Lygia Clark (1920-1988), expoente do movimento neoconcreto brasileiro, pode ser medida tanto pelas obras que deixou como por projetos que não conseguiu realizar, mas estão registrados como propostas artísticas em seus cadernos de notas. Antecipando-se ao centenário de nascimento da artista, em 2020, o Studio OM.art promove, a partir do dia 17 de setembro, a exposição Respire Comigo – Lygia Clark, em sua sede no Rio, com apoio curatorial de Felipe Scovino e idealização da designer Alessandra Clark, neta da artista, e Carolyna Aguiar. Também no segundo semestre, o Studio OM.art – iniciais do médico, artista e designer gaúcho Oskar Metsavaht – abre a exposição Tunga: Pensatorium, dedicada ao pernambucano Tunga (1952-2016), que tem como curador seu amigo francês Marc Pottier (leia texto nesta página). A mostra será aberta no dia 9 de novembro.

Lygia Clark ganha, em 2020, outras mostras fora do Brasil. Um selo, desenhado por Oskar Metsavaht, marca o início das comemorações do seu centenário, que será lembrado por exposições no Guggenheim Bilbao (em março) e no Peggy Guggenheim de Veneza (em julho). É provável que Portugal e Inglaterra também organizem mostras da artista, segundo a neta de Lygia Clark. Alessandra cita o crescente interesse pela obra da avó desde a grande retrospectiva promovida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) em 2014, que reuniu mais de 300 obras. “O Museu de Arte Moderna de São Francisco acabou de comprar uma peça de Lygia e a Tate Modern está em negociações com um colecionador para a aquisição de uma outra obra”, revela Alessandra.

A homenagem que a OM.art vai prestar em setembro não tem como foco os objetos criados pela artista, mas seu trabalho terapêutico. Ele começa em 1964 com a obra Caminhando, que pode ser identificada como o ponto de virada da carreira de Lygia Clark, uma ruptura com o modelo que levou à dissolução do grupo neoconcreto justamente no conturbado período da radical mudança política no País, definido pelo golpe militar daquele ano. As tensões políticas da época, indiretamente, surgem inseridas nesse trabalho, um recorte da fita de Moebius que ensaia um resgate do ato lúdico nesse momento traumático da história do Brasil.

Lygia considerava Caminhando um marco de suas propostas interativas com o espectador, que percorreria, ao cortar a fita de Moebius, uma trajetória contínua sem frente ou verso. O trabalho com o corpo (do observador) incorporava tanto os conceitos duchampianos – roupas que estimulavam a percepção por meio de objetos fabricados, como luvas, cintos e óculos – como artaudianos – as performances tinham algo de teatral, como a que dá título à exposição carioca, Respire Comigo (1968), proposição artística identificada com uma série dedicada a explorar o corpo (Nostalgia do Corpo, do mesmo ano, tem exatamente o mesmo propósito).

Oskar Metsavaht justifica o foco na prática terapêutica de Lygia Clark como uma tentativa de prestar uma homenagem à artista sem caráter comercial. Essa técnica, como observou a crítica Maria Alice Milliet, consiste em reviver num contexto regressivo o que ficou marcado na memória do corpo. Como médico, Oskar acha difícil avaliar essa técnica, mas destaca a importância artística dos exercícios de sensibilização propostos por Lygia Clark a seus alunos da Sorbonne nos anos 1970, quando a artista comandou experiências grupais com o corpo – por causa delas foi até chamada de “vigarista” no Salão da Jovem Escultura nos jardins de Luxemburgo, por pessoas que não entenderam sua proposta radical de reinventar o corpo.

Como artista, Oskar diz que ela e outro vetor da arte contemporânea, o também neoconcreto Hélio Oiticica, tiveram importância fundamental em sua formação – tanto que inaugurou seu estúdio, em 2018, no Jardim Botânico, com uma exposição em homenagem ao artista, Rodhislândia, título que remete aos “penetráveis’ de Oiticica. Ele e Lygia Clark, que Oskar não conheceu, foram grandes amigos e trocaram cartas e experiências, que, imaginavam, podiam inocular no espectador uma nova maneira de ver arte. Os dois grandes transgressores do movimento neoconcreto, vale dizer, fizeram isso em plena ditadura, rompendo com o mercado para conciliar o racionalismo construtivo com a liberdade dos sentidos – sexual inclusive, considerando os “objetos relacionais” de Lygia dos anos 1970, destinados a estimular o corpo por meio de objetos (sacos plásticos com bolinhas de isopor ou água).

Essa proposta buscava confundir arte e vida, justamente como propôs Artaud em seu teatro. Não se tratava de performance, de representação, mas de uma experiência física, sensorial, que dialogava com a psicanálise – numa época, evoque-se, marcada pelas ideias do teórico e psiquiatra britânico Ronald David Laing (1927-1989), também chamado – incorretamente – de papa da antipsiquiatria. “É preciso observar que Lygia não era uma profissional da ciência, mas uma artista interessada em ajudar as pessoas a descobrir o próprio corpo e aprimorar as relações interpessoais”, conclui Oskar Metsavaht, lembrando a obsessão que Oiticica também tinha pelo conhecimento científico, como Lygia. Mantendo seu estúdio permanentemente aberto ao público como um museu, ele reitera a proposta da artista, criadora de objetos hoje disputados como seus “bichos” (peças articuláveis de metal). Ao romper com a imobilidade das esculturas e sair do plano de suas telas neoconcretas, ela cumpriu o próprio mandamento: “A obra de arte deve exigir uma participação imediata do espectador”.

LYGIA CLARK

Studio OM-art. R. Jardim Botânico, 997, Rio, tel. (21) 2239-9019 4ª/6ª, 14h/20h. Sáb. e dom., 11h/20h. Abre 17/9. Até 27/10

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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