A função do historiador é lembrar à sociedade aquilo que ela quer esquecer, como disse Peter Burke. Mesmo se essa lembrança a desa­grade, a ofenda ou a coloque numa posição de vilã. A educação escolar e, em especial, a educação para a história, é vital para a formação de cidadãos conscientes e engajados. Quero aproveitar o aniversário da nossa querida Ribeirão para, como professor e historiador, rever alguns conceitos e reavaliar alguns acontecimentos. E para começar, a própria data que foi escolhida para essa comemoração – uma escolha mais política do que científica.

O conceito de “fundação” das cidades sempre foi controverso e, quase sempre, uma data exata não existe. A escolha de 19/06/1856 para o nosso caso foi oficializada pela lei municipal nº 386, aprovada pela Câmara em 24/12/1954. Quem esmiuçou todo o jogo de interesses que envolveu a escolha dessa data foi o arquiteto Ricardo Barros na sua obra “História da História da Fundação de Ribeirão Preto”. A decisão se baseou em uma pesquisa de Osmani Emboaba da Costa, aprovada por uma banca de pro­fessores da USP, e que se baseava em uma ordem judicial para a demarca­ção do patrimônio doado à Igreja.
Outra proposta, que colocava a fundação em 1863, e que acabou sendo rejeitada, era a de Plínio Travassos dos Santos. No entanto, o olhar crítico do historiador, com base no que revelaram recentemente novas fontes, nos impõe uma data bem anterior. Em um documento judicial de 1853, encontramos: “construíram algumas pessoas do povo, não embar­gadas, uma capelinha e algumas casas no mesmíssimo lugar beneficiado e destinado para a povoação da Barra do Retiro”. Ribeirão já existia em 1853, como bem nos informa Ricardo Barros em seu livro.

A polêmica da data está ligada diretamente à questão do “marco zero”. A tradição nos ensinou que foi na Praça XV, em torno da capela de São Se­bastião, que existia no exato lugar da fonte luminosa. O mesmo documen­to, citado acima, nos informa que a tal capelinha e as tais casas ficavam, na verdade, na área do entorno do Palácio Rio Branco. As listas eleitorais de São Simão corroboram essas informações e ainda nos revelam outros no­mes que nossa cidade teve na sua origem e que ficaram no esquecimento: São Sebastião do Retiro, Arraial de São Sebastião, Arraial do Retiro.

Outro fato que a história oficial desconheceu, até há muito pouco tem­po, foi que Ribeirão nasceu sob o signo da luta pela terra. Tudo começou com as escaramuças entre duas famílias de Batatais, os Dias Campos e os Reis de Araújo, disputando o imenso latifúndio a que chamavam fazenda do Rio Pardo. A pendenga começou em 1834 e só foi resolvida pelo juiz de Casa Branca em 1842, dando início à regularização fundiária da região. A ação judicial relativa a esta disputa por terras pode ser encontrada hoje em nosso Arquivo Histórico.

Depois, comerciantes e fazendeiros quiseram edificar uma povoação. E veio mais polêmica. A demarcação do lugar onde seria construída a capela, agora oficial, e abertas as primeiras ruas e travessas, somente foi possível após se resolver uma outra questão judicial sobre invasão de terras na fazenda Barra do Retiro. Esta fazenda corresponde exatamente à região central da cidade. E como a solução não contentou a todos, tivemos, ao final, uma vítima fatal. Foi assassinado o próprio zelador do terreno onde já se construía a capela de São Sebastião, Manoel Fernandes do Nascimento.

Nem tudo que nos contaram aconteceu exatamente como dizem a his­tória oficial e a tradição. Aprendemos que Ribeirão começou com o café. É o que nos sugere o hino da cidade. Nada disso! Houve muita história antes do café. E com o café, vieram os imigrantes europeus. Parece que se es­conde, meio passando a boiada, que por aqui tivemos muita mão de obra escrava. Escravos negros trabalharam nas primeiras fazendas de café. Que o digam o Coronel João Franco de Moraes Octávio e os irmãos Barretos em Cravinhos. Mas podemos falar disso melhor em outra oportunidade.

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