Coube aos sumérios, 6.000 anos antes de Cristo, produzir artesanalmente o que seria conhecido como cerveja, líquido decor­rente da mistura de água com cevada, abundante e nativa da região mesopotâmica, onde viviam. Na Idade Média, os monges aperfei­çoaram a sua fórmula, introduzindo frutos e o lúpulo, que dá o amargor gostoso da cerveja e também ajuda na sua conservação.

No Brasil, a cerveja chegou em 1637, com a invasão holande­sa capitaneada por Maurício de Nassau, quando Recife tornou-se a sede da primeira cervejaria das Américas. No resto do país, já se bebia cerveja feita artesanalmente. Com a vinda da corte portuguesa, em 1808 e a abertura dos portos, as cervejas inglesas dominaram o mercado, já que a Inglaterra era o maior parceiro comercial do reino. Mas, esta supremacia seria contestada com a chegada de cervejas alemãs, mais ao gosto dos brasileiros.

Várias pequenas fábricas surgiram nas grandes cidades, em­preendimentos artesanais, que produziam as chamadas cervejas de barbante, pois a sua fermentação era tão grande e produzia tanto gás carbônico que as rolhas precisavam ser amarradas à garrafa. A primeira grande cervejaria industrial surgiria em São Paulo, no ano de 1885, a Antarctica, seguida pela Brahma, em 1888, no Rio de Janeiro. Ambas iniciativas de alemães.

A imigração trouxe vários pequenos produtores de cerveja para nossa cidade. Mas, a primeira cervejaria que obteve su­cesso em larga escala foi a Livi&Bertoldi, fundada em 1886, na rua Capitão Salomão. Em busca de água de qualidade, numa época em que não havia recursos químicos como os atuais para a purificação do líquido, a Antarctica funda sua filial em nossa cidade, em agosto de 1911. Três anos depois, surge a Companhia Cervejaria Paulista,
genuinamente ribeirãopretana, fruto de investimento do capital auferido com o café.

As duas grandes cervejarias lutariam pela conquista do mercado local e regional, colaborando com o desenvolvimento da cidade e formando mão de obra especializada, até o ano de 1972, quando se fundem, dando origem à Companhia Antarctica Niger.

Em 1936, no térreo do Edifício Diederichsen, aparece o bar Pin­guim, que se tornaria instituição local e lançaria o nome da cidade em âmbito nacional. Conta a lenda, que a qualidade do chopp ali vendido decorria da existência de um choppduto ligando o mesmo à fábrica da Antarctica. Tive oportunidade de perguntar a Alba­no Celini, lendário proprietário do mesmo, que me esclareceu a verdade. Não havia ligação nenhuma direta com o fabricante, mas alimentava a lenda como instrumento de marketing.

Na realidade, o chopp e a cerveja são um mesmo produto. Enquanto a cerveja é pasteurizada, num processo que interrom­pe a fermentação, matando os micro organismos nela existen­tes, sem alterar o sabor, no chopp o processo de fermentação continua, daí a necessidade de mantê-lo no gelo para estabilizar. O que o Pinguim fazia era colocar os barris numa câmara fria, onde repousavam duas semanas antes do uso, preservando o sabor e aroma próprios da bebida.

O ano de 2003 marca o fim da produção em grande escala da cerveja em nossa cidade, com a desativação da fábrica da Antarctica Niger. Surgem então as microcervejarias, que transformam Ribeirão Preto num importante polo de produção artesanal. Estas cervejarias seguem a Lei da Pureza Alemã, que define a cerveja como o produto decorrente da fermentação do malte e do lúpulo em água potável, não utilizando outros cereais, como permite a legislação brasileira.

Todos nós torcemos pelo fim da pandemia para podermos retornar ao gostoso hábito ribeirãopretano de beber uma cerveja ou um chopp no nosso happy hour.