Ah, é porque é burro e idiota… Calma! O bolsonarismo é um fenômeno social e político muito mais complexo do que se apresenta à primeira vista. Já tem sido, inclusive, objeto de pesquisa acadêmica e de profunda reflexão entre especialistas. Um deles é Wilson Gomes que sempre escreve brilhantes artigos na revista Cult. Ele é doutor em Filo­sofia e professor titular da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Confesso para você que adoro suas publicações e já me reportei a elas outras vezes por aqui. Como faço hoje.

Wilson Gomes, em um artigo recente, lança para o leitor uma série de indagações. Como é possível, por exemplo, um bolsonarista, ainda no meio de uma pandemia, fazer campanha para que as pessoas não se vacinem? Ou para que as autoridades não tenham o direito de vaciná-la? Por que um bolsonarista precisa negar o número de mortos da pan­demia? Ou ser contra o uso de máscara? Ou atacar a credibilidade da Organização Mundial da Saúde (OMS), do jornalismo de qualidade, dos cientistas e até dos centros de pesquisa?

E continua: “Alguém saberia me informar por que alguém de direita, ou conservador, ou patriota, ou cristão verdadeiro, ou pessoa de bem, ou qualquer das designações que queira utilizar para dar um vernizinho ao seu bolsonarismo, precisa continuar minimizando os efeitos da Co­vid-19? Qual é mesmo a correlação explícita entre a ideologia de direita e o ato de prescrever ou defender medicamentos contra vermes ou contra malária para curar uma doença que a pesquisa diz que não pode ser curada deste modo?”

Tudo isso parece uma insanidade absoluta mas é real e está aí na nossa cara todos os dias. E uma pergunta que não quer calar: por que um governo e um movimento ideologicamente da direita ultracon­servadora precisariam assumir, contra todas as evidências, as atitudes que tomam e as ideias que propagam? Se valores de direita estivessem minimamente implicados nas teorias que defendem, poderíamos até entender, mas o fato é que não há qualquer relação entre vermífugos e conservadorismo, pelo menos até onde a nossa imaginação alcança. Então, por quê?

Gomes tenta encontrar uma explicação ao dizer que não podemos ver o bolsonarismo apenas como uma ideologia. Quem assim o faz, só vê um lado da questão. Trata-se de um movimento identitário! (e movi­mentos assim não existem somente no campo da esquerda). Neste caso, mais decisivo do que estar com a razão é não estar sós. Ou, ao contrário, o importante é estarem juntos, não precisam estar certos. Se o outro lado é pela ciência, admite que existe uma pandemia e recomenda a vacina, os que se identificam com o movimento serão contra a ciência, negarão a pandemia e atacarão a vacina. Simples assim.

É óbvio que as fakenews cumprem um papel fundamental neste mo­vimento de afirmação de uma identidade. Elas existem para promover a manipulação política. Elas nada têm a ver com comunicação, e sim com política. “Por meio de fakenews e de teorias da conspiração politiza-se tudo: questões de saúde, ciência, economia, comportamento, jornalismo, decisões judiciais, futebol, religião, nada fica de fora […] (elas existem) para unir a facção, a seita, para demarcar a nossa posição ante os nossos adversários e para atacar os nossos inimigos”, afirma Gomes.

A nova extrema-direita precisa de uma hiperidentidade de tribo, de manada. Depois não gostam de serem chamados de “gado”! Ela busca o conflito perpétuo e radical e está convencida de que tudo vale na disputa por narrativas e enquadramentos de fatos. Quem for bolsonarista tem que ser contra vacina (e inventar fatos que justifiquem essa posição), tem que ser contra urnas eletrônicas (e inventar teorias da conspiração que justifiquem isso). “O resultado é isso, a insana tribalização que apaga a racionalidade e torna infernal a vida em sociedade”, conclui Gomes.