Corria o ano de 1961, meus dez anos de idade ainda não completos, os sete anos de idade de meu irmão também incompletos e deflagrara-se uma campanha de vacinação contra a Poliomielite, vacina oral, uma gotinha na boca das crianças que iria garantira imunidade, a saúde, a infância sem problemas, sem a temida paralisia infantil, um tormento que tirava o sono da grande maioria dos pais, das mães e de todos os familiares.

Era uma campanha de forma não sistemática, somente dez anos depois, em 1971, criou-se o Plano Nacional de Controle da Poliomielite. Em 1979, foi concluído um estudo epidemiológico dos casos ocorridos entre os anos de 1975 a1979 e no ano seguinte, 1980, houve a instituição dos Dias Nacio­nais de Vacinação, que se constituíram em vacinação massiva, duas vezes por ano, em um só dia, de todos os menores de quatro anos.

Em 1986, houve uma mudança de estratégia de controle para uma política de erradicação da pólio. A primeira vacina contra a poliomielite foi a vacina inativada contra pólio. Ela foi desenvolvida por Jonas Salk e entrou em uso em 1955. A vacina oral contra a poliomielite foi desenvolvida por Albert Sabin e entrou em uso comercial em 1961. As vacinas estão na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial de Saúde, os medi­camentos mais eficazes, seguros e necessários em um sistema de saúde. Salk e Sabin renunciaram aos direitos de patente da vacina, facilitando a difusão da mesma e permitindo que crianças de todo o mundo fossem imunizadas contra a poliomielite.

Criança, eu não sabia de nada disso, apenas que a vacina era necessária e era para meu bem, de meu irmão e de meus amigos. Como já utilizava sem maiores perigos o ônibus que me trazia ao centro da cidade, onde frequentava a Biblioteca Altino Arantes, atualmente Sinhá Junqueira, pedi a minha mãe que me deixasse vir com meu irmão ao Posto de Saúde para recebermos a nossa dose de vacina. Mamãe concordou e com o dinheiro da passagem em minha pequena bolsa, dirigimo-nos, mãozinhas dadas para o ponto de ônibus. Meu irmão passava embaixo da roleta, eu não, pagava o transporte.

Muitas pessoas entraram depois de nós dois na condução, fomos sentados bem na frente. Chegamos à Praça Carlos Gomes, o antigo terminal da cidade. Seguimos subindo para a rua São Sebastião esquina com a rua Cerqueira César. Sempre de mãos dadas, duas crianças andando pelas ruas, pela primeira vez sozinhas, com algum receio, uma sensação mista de medo e emoção, orgulho e independência, fosse a vacina alguma picada injetável, não iríamos mesmo, só com o pai, a mãe e, se possível, com a avó, imensa­mente cuidadosa.

Estávamos diante do Posto de Saúde, na antecâmara sobre uma mesa, um livro muito grande onde a atendente anotava quem eram os candidatos, fomos uns dos primeiros a chegar. Enfermeira, toda de branco, nos recebeu e perguntou já com a caneta tinteiro na mão: – Como se chama o menino?

Sobre nossas cabeças, atrás de nós, a voz mais conhecida de nossas vidas: Paulo Roberto Moço. Nossa mãe, que com certeza nos seguira, em­barcara no mesmo ônibus e estava ali nos demonstrando, naquele instante que estaria sempre conosco.

Aos meus sessenta e nove anos, dias destes, no primeiro trimestre de 2021, dirigi-me à Unidade Básica de Saúde onde havia agendado minha vacinação para ser protegida contra o Corona Vírus, que causa a Covid-19, atual pandemia, contando com a provável imunização que informam ser capaz de evitar em 100% casos graves, internações e mortes pela doença.

Estava numa manhã de sol, diante do Posto de Saúde, na antecâmara sobre uma mesa, o computador já no programa de agendamento instalado, onde a atendente localizava os candidatos inscritos para aquela data, fui uma das primeiras a chegar. A Enfermeira, de jaleco branco, me recebeu e perguntou já com o comprovante na mão: – Como você se chama?

Com uma lágrima rolando na face, com o coração cheio de esperança eu disse meu nome, mas, ao receber a vacina, bem baixinho no ouvido, meu nome foi repetido pela voz mais conhecida e amada de minha vida … era a garantia de que ela estava comigo.