Para além da catalogação de uma obra em gênero, estilo e período literário, considerar a articulação interpretativa, em detrimento da articulação estrutural, permite-nos considerar a importância de contextos históricos, os mais diversos, em diferentes momentos do enredo, e não só quando referências lineares e casuais vão sendo narradas. Uma vez que a narrativa simples vincula-se ao mítico e ao ideológico, a complexidade de outras se deve ao rompimento que promovem com o mítico e a ideologia real para promoção da abertura semântica, direção na qual a crítica vem se encaminhando há tempos.

Privilegiando a oralidade, a narrativa simples busca fortalecer comportamentos sociais e literários que, despretensiosos, trazem à pena o modo ingênuo, natural e primitivo de se contar histórias. Por sua vez, objetivando analisar os mitos em que repousam os valores sociais de qualquer tempo, a narrativa complexa, de imediato, se posiciona para criticar o comporta­mento cognitivo dos homens no decorrer da história, lançando intencionalmente, em alguns momentos, o anti-herói que, de maneira insólita, reorganiza o enredo. Logo, o mito e a ideolo­gia unidos em uma, denunciam falsidades em outra. Entretanto, ao denunciar estas últimas, a narrativa complexa não estaria, também, recriando um novo mito, uma nova ideologia?

Obviamente que sim. Simples ou complexa, a narrativa é uma construção a preencher o va­zio das não idéias, a partir de uma idéia primeira, ainda que não original. Cabe aqui a ressalva que muitos fazem sobre o não ineditismo dos enredos, a saber, que tudo que podia ser escrito já o foi, e que o novo não passa de seguidas repetições de um determinado original. Também, a ressalva de outra característica que distingue a narrativa simples da narrativa complexa: enquanto a primeira busca a primazia das personagens simples, com foco destacado em um mínimo de protagonistas, a complexa introduz estranhamentos que subvertem o simbólico, direcionando-o ao alegórico nas entrelinhas.

Tais constatações nos levam a associar, portanto, o significado e final fechado à sim­plicidade narrativa, ao passo que, o ambíguo, o inconsciente, o imaginário em aberto, admitindo toda a amplitude de significados, à complexidade narrativa. A utilidade destas informações? Guiar-nos desde a escolha de qual obra ler aos caminhos possíveis de uma análise crítica da mesma. Porque, em análise literária, são os enredos que determinam a teoria, ou técnica, que deve ser empregada para sua melhor compreensão, e não vice versa. Do mesmo modo, são nossos horizontes, e o que lhes falta, que ditam qual conteúdo buscar na obra que desejamos comprar.

Ler, portanto, tal qual a estrutura narrativa, pode ser simples ou complexo: depende de quais caminhos a imaginação aprecia caminhar ou desconstruir, para melhor ousar e conhe­cer. Certamente que a leitura é um refúgio, ditado pelo que já sabemos, pelo que estamos descobrindo e pelo que ainda queremos conhecer. Entretanto, um refúgio diferenciado: quem lê sabe com que chave se deve abrir o universo.

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