SOBRE FOTOGRAFIA, de Susan Sontag

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Ganhador do National Book Critic Circle Award de 1977, “Sobre fotografia” (“On Pho­tography”, no original), da escritora nova-iorquina Susan Sontag (1933-2004), foi publicado originalmente no Brasil em 1983. Nele, expressando suas opiniões sobre a história e o papel atual da fotografia nas sociedades capitalistas a partir da década de 1970, a autora trata tanto da fotografia moderna quanto da “relação voyeurística crônica” que a proliferação de imagens fotográficas estabeleceu em todo o mundo, ainda que o significado do objeto fotografado acabe nivelado e igualado.

Não acadêmico, o livro não traz bibliografia, quanto muito algumas notas. Nestas, Roland Barthes, teórico literário francês, filósofo e crítico, tem algumas ideias recuperadas de seu livro “Mitologias”, como, por exemplo, a reflexão “os indivíduos nascem, trabalham, riem e morrem em todos os lugares da mesma maneira”. Reunindo seis ensaios escritos na década de 70, nos quais a fotografia é analisada como fenômeno de civilização desde o aparecimento do daguer­reótipo, no século XIX, o alcance da obra é configurar-se como uma história social do que é visto pelo homem, “demonstrando seu lugar central na cultura contemporânea”.

De acordo com os editores, nele “Sontag extrapola os domínios da técnica da fotografia, enfoque que desliga a prática fotográfica do quadro social que a inventa e a consome. Abran­gentes e reflexivas, as análises dialogam com a filosofia, a sociologia, a estética e a arte pictó­rica. A erudição da autora não se traduz, porém, em hermetismo. Seu estilo é simples, direto, leve e sedutor, marca de uma das mais atuantes intelectuais da atualidade”. Nas palavras da autora, ao discutir as relações entre os acontecimentos e as imagens produzidas a partir deles, “A realidade, como tal, é redefinida pela fotografia”, pontuando como as noções de “fato” e “representação” se embaralham nas sociedades industriais e consumistas, onde “tudo existe para terminar numa foto”.

Responsável pela popularização de filósofos como Walter Benjamin e Roland Barthes no cenário intelectual americano, ao ser indagada, em entrevista anterior, sobre seu processo de criação em ficção (a autora também é romancista), assim se expressou, “Gosto de contar his­tórias, mas também gosto de saber da forma antes. Há muitos escritores que não agem dessa forma. Entram no seu pequeno barco e navegam pelo oceano. Mas eu preciso ter uma arqui­tetura do livro na minha cabeça. Sem a forma não poderia começar… Escrevi uma novela am­bientada no século 18, “O Amante do Vulcão”, depois no século 19, “Na América”. A próxima vai se passar no final século 20, estou me atualizando. Quando você escreve sobre o passado, você está aqui, presente. Tem de escrever de maneira que reflita preocupações contemporâne­as. Mas não há esforço para isso. É como acontece”.

Recentemente, em sua biografia publicada no Brasil, “SONTAG: Vida e obra”, seu biógrafo, Benjamin Moser (autor de “Clarice, uma biografia”) conta como Sontag, “menina dos subúr­bios que se tornou símbolo do cosmopolitismo”, representa o século XX americano e deixou um legado intelectual que abrange uma imensidade de temas, como arte e política, feminismo e homossexualidade, medicina e drogas, radicalismos e fascismo, revelando-se chave indis­pensável para entender a cultura da modernidade. Mais atrativos? “Com centenas de entrevis­tas e quase cem imagens, este é o primeiro livro que tem como fontes os arquivos privados da escritora e várias pessoas que por muito tempo não se manifestaram sobre Sontag”.

Mais de vinte anos depois de “Sobre a fotografia”, a autora publica “Diante da dor dos ou­tros”, sobre a influência das imagens de sofrimento na vida cotidiana, partindo das pinturas de Goya, Segunda Guerra Mundial e Vietnã até chegar às imagens do 11 de setembro de 2001.