Escrever sobre Sócrates sempre me dá um enorme prazer, é um ser humano de primeira. Nossas conversas varavam madrugadas e raramente ele falava de política. Era comum receber ligações de todo Brasil, adorava conversar com Leandro, grande lateral do Flamengo e da seleção brasileira, chamava-o de Léo.

Falava sempre com jogadores do exterior, adversários das copas de 1982 e 1986. Platini, o craque francês, sempre ligava. Outro que tefelonava com frequência era o italiano Bertoni. Ambos tinham muita admiração pelo Doutor. Quando foi jogar na Fiorentina, Sócrates bateu de frente com o mau humorado zagueiro argentino Passarela.

O cara era um mala, nem olhava pro Magrão. O caboclo liderava parte do time contra Sócrates porque o Doutor ganhava mais, era o mais assediado, o mais requisitado para entrevistas e isso despertou uma ciumeira danada no sujeito, que até então reinava por lá como o “rei da cocada preta”. Só podia dar ruim. Quando entrava em campo, o time se dividia e não ganhava de ninguém, era o maior perrengue.

Sócrates adorava a cidade de Florença, que esbanja cultura e isso o conquistou, mas pra jogar ele não se sentia à vontade. Disse um dia que seus pés congelavam dentro da chuteira, mesmo ele colocando jornais e sacos plásticos para aquecê-los. Era nesse momento que ele se perguntava: “O quê estou fazendo aqui? Meu lugar não é aqui!!!” O dinheiro para ele era o menos importante, pois sempre dizia viver numa busca constante de ser feliz, de estar feliz e mesmo perdendo muito dinheiro decidiu voltar para o nosso amado Brasil.

Fechou com o Flamengo, realizando seu sonho de estar ao lado de Zico, seu parceiro de seleção. Disse que morava em um prédio e só conhecia o vizinho de frente. Quem mora em prédio sabe como é. Um belo dia, porém, descendo de elevador, encontrou Paulinho, cantor da maravilhosa banda Roupa Nova. Os dois moravam ali fazia um tempão e só se cruzaram naquele momento.

Paulinho disse amar a banda e seus parceiros, mas todos tinham que trabalhar muito, pois o cachê dos shows era um só, dividido em sete, todos eram donos da banda. Além disso, o músico explicou como funciona o esquema do grupo. “Sócrates, veja o caso de qualquer cantor, o cachê é somente dele e os músicos da banda que o acompanha são seus funcionários. Agora, em nossa banda temos ainda uma equipe com mais de 30 funcionários, isso faz uns 30 anos e até hoje a banda continua na ativa”.

A história da camisa Sócrates já havia me contado, mas faz algum tempo que recebi um vídeo do último jogo do Magrão pelo Corinthians, Estado do Ceará, na cidade de Sobral, terra de meu amigo Arry Rocha. Nesse dia, Sobral parou, aeroporto lotado e os fãs cercaram o avião. Foi uma loucura, tudo era uma grande festa. Afinal, Sócrates faria ali seu último jogo com o manto sagrado de seu time de coração.

Por todo o trajeto a manifestação do povo era de arrepiar. Sócrates, muito emocionado, pouco falou. Rolou o jogo e o Magrão, com muito custo, segurou a camisa que usou. Era pra guardar de lembrança. Depois, já no hotel – como sempre, Casagrande e Magrão ficaram no mesmo quarto –, o Doutor , depois do banho, deixou a camisa num canto e desceu para o saguão para atender a imprensa e festejar.

Naquela muvuca toda, Casagrande se engraçou com uma fã, e no papo a levou para o quarto. Após o rala e rola, ela pediu a Casagrande uma lembrança do Corinthians, e o craque, empolgado, nem percebeu, mas entregou para a moça a camisa oito do parceiro, que na hora de fazer a mala não a encontrou, lógico. Sócrates perguntou ao amigo, que confessou o que fizera sem querer. O Magrão ficou chateado, mas depois acariciou a enorme cabeleira do Casão e disse: “Casão, foi por uma boa causa”. E trocaram ali aquele abraço amigo.
Sexta conto mais.

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