Esta semana, estava numa clínica médica ali na rua Itacolomi. Quando saí de lá, a ficha caiu e uma terna lembrança invadiu meus pensamentos: em frente ao consultório médico está localizada uma praça super-arborizada que é abraçada pelas ruas Marechal Deodoro, avenida Itatiaia, Floriano Peixoto e a Itacolomi. Pois bem, lá pelos anos 60 esta praça era um dos locais onde a meninada próxima usava como campo de futebol, as peladas eram diárias.

Entre estes meninos havia um que anos depois se tornaria um dos jogadores de futebol mais famosos do mundo. Ele dava ali seus primeiros toques de calcanhar, que mais tarde seriam reconhecidos como sua marca registrada.

Falo de Sócrates.

Certa tarde eu estava de carona no carro dele e, ao passarmos ao lado da praça, ele disse: “Buenão, aqui nesta praça comecei a aprimorar minhas habilidades futebolísticas, foi meu campinho de futebol quando menino, ela tem uma pequena caída, mas a grama era perfeita, a molecada passava em minha casa, eu era o dono da bola, a gente vinha até aqui e a pelada acontecia. Só que tinha uma coisa, Buenão, nela havia algumas árvores e eu tinha que driblar os meninos e as árvores”. Ele lembrava dessa passagem de sua vida e ria muito.

Disse mais: “Buenão, imagine meu pai, o Vieirão” – era assim que o Magrão carinhosamente falava do seu Vieira, estava sempre por perto, além de ser um apaixonado por futebol, lia muito, colocava livros por todos caminhos da casa, até no banheiro, tudo pra despertar nos filhos a curiosidade e o prazer pela leitura.

“Meu pai percebia que eu tinha certo talento com a redonda e um dia lhe disse que meu time “Raio de Ouro” ia jogar em Bonfim Paulista e que íamos de caminhão. Ele disse ‘eu também vou’. Buenão, quando vi meu pai na boleia daquele velho caminhão, fiquei orgulhoso e até pensei: ‘Pô, meu pai vai me ver jogar, tenho que dar o máximo para fazê-lo feliz’. Naquela manhã, joguei muito Buenão, acabei com o jogo, percebi no rosto de meu pai que ele estava extremamente feliz e pra me incentivar disse: ‘Gostei muito, mas acho que você pode jogar muito mais’. Aí eu é que me senti o cara”.

Sócrates era o mais velho de seis filhos, os três primeiros receberam nomes gregos: Sócrates, Sóstenes e Sófocles. Uma tarde, estávamos juntos e seu telefone tocou, alguém queria saber quem era seu empresário. Ele nunca teve empresário, sozinho resolvia tudo. Disse isso ao cidadão que logo se abriu dizendo que o governo grego queria lhe homenagear por ter o nome de seu maior filósofo. Sócrates abriu a guarda, a conversa fluiu, acertou o cachê, passagens aéreas, estadia… Tudo depois de checar a veracidade da proposta – ele dizia já ter sido enganado por empresários picaretas.

Quando viu que a coisa era séria, de repente Magrão embarcou sozinho pra Grécia, ficou por lá uns dez dias, voltou super feliz apesar de suas malas terem sido desviadas, sendo devolvidas violadas e ele nem se importou. Sócrates não tinha a dimensão do quanto era querido lá na Grécia. O sucesso foi tanto que fechou contrato para voltar e ficar 15 dias no país com direito a levar seus filhos e esposa, seria para receber muitas homenagens, dar palestras, participar de programas de TV e outros eventos.

Data marcada, lá foi ele novamente pra terra do seu xará Sócrates. Seus filhos adoraram e, numa das homenagens, vestiram-no com aquelas roupas cheias de pompas, tipo galardão com seus cordões dourados e outras “cositas mas”, parecia até um Dom Pedro II.

De volta a Ribeirão Preto, me presenteou com guarda-copos grego que guardo com o maior carinho. Ele disse que participou de um programa de TV tipo Jô Soares e os caras colocaram no ar um vídeo de nós dois cantando num bar. Magrão ficou de cara, pois nem nós tínhamos isso, ele acha que algum turista grego passando por aqui nos filmou. “Buenão”, disse ele, “lá me senti valorizado. Pra você ter uma ideia, o que ganhei por 15 dias de trabalho dá pra gente farrear por uns dois anos”. E riu muito.

Sexta conto mais.

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