Sócrates no exame antidoping

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Muitas vezes, naquela mesa do Empório Brasília, olhava as feições do rosto de Sócrates e percebia que seu corpo estava ali, mas seu pensamento sabe-se lá onde estava. Acostumado com tudo isso, mandava minha pergunta: “Onde você tá hoje, parceiro?” Certa noi­te, ele disse: “Buenão, tõ lá na Fifa, tentando mudar a quantidade de jogadores no campo, uma vez que o futebol arte está cada vez mais em baixa, enquanto a preparação física mais aprimorada”.

E explicou: “Os habilidosos são anulados por falta de espaço, quase não se vê lançamentos longos, daqueles de três dedos tipo Rivelino, que quando batia na bola, a gente só acompanhava sua trajetória, era lindo ver a curva que ela fazia, chegando perfeita onde o camisa 10 imaginava. Só vejo uma solução pra melhorar o futebol, Buenão: pra mim, tem que ser dez contra dez”. Olhei pra ele, espan­tado, e ele continuaou: “Isso mesmo, tirar um jogador de cada lado”.
Hoje, mais de 15 anos depois, vejo que ele estava certo.

Na Toca da Raposa
Numa outra ocasião, lá estava Sócrates viajando sem mala. Eu cutucava: “Hoje você tá longe ou perto, Magrão?” E: “Buenão, tõ lá na Toca da Raposa, CT do Cruzeiro, treinando com a seleção de 82”. Lembro-me de ter comentado: “Poxa, Magrão, que seleção, hein, parceiro?” Ele respondeu: “Buenão, imagine só, cara, eu joguei com Oscar, Leandro, Zico, Falcão, Junior, Cerezo… Fazíamos cada jogada nos treinamentos que o Telê Santana ria sozinho, parecia mágica, pena que poucos viram”.

A namorada que ele não sabia – Ele contou que foi a uma festa de jornalistas em Sampa, e a resenha com amigos rolava solta quan­do se aproxima uma belíssima loira, alta, cabelos compridos. Sorrin­do, perguntou se podia falar com ele. Magrão até brincou: “Se tem uma coisa que a família Vieira de Oliveira não foge é de mulher”. Ela riu e comentou: “Então, Sócrates, eu já fui sua namorada”.

Ele, espantado, falou: “E eu que não sabia”. Ela disse ser jornalista e, junto com outros colegas, cobria a guerra Irã-Iraque. Eles teriam de realizar uma travessia, ela foi barrada e colocada numa sala incomuni­cável. Ficou horas sozinha imaginando o que iria acontecer. De repente, a porta se abriu, surgiu um oficial iraquiano de cara fechada, cheio de estrelas nos ombros e foi logo perguntando: “De onde você é?”

Temerosa, ela disse: “Sou do Brasil”. Ele abriu um enorme sorriso e disse: “Brasil, Zico, Falcão, Sócrates…” Ela sacou que o cara era fã da seleça de 82, lembrou que tinha uma foto do Sócrates no meio de sua agenda e mandou um sambarilove no oficial. “Sócrates é meu namorado”. E mostrou a foto. O sujeito pegou a fotografia e saiu gri­tando pra tropa: “Sócrates, Sócrates, ela é namorada do Sócrates, ela é do Brasil”. A loira contou que, a partir daquele momento, passou a ser paparicada como nunca. “Virei a rainha da cocada preta”. Sócra­tes riu e brincou: “Sou pouco valorizado”.

Sorteado pro antidoping
Noutra noite, Magrão contou-me que, na Copa do Mundo, mar­cou um gol contra a Nova Zelândia e foi sorteado para o antidoping. No trajeto até a sala da Fifa, cruzou com o adversário, que já tinha feito seu xixi. Em seguida, Nocaute Jack, massagista da seleção que foi na frente dar uma geral, disse: “Magrão, a geladeira tá cheinha de cervejas, o cara aí da frente não tomou nenhuma”.

“Buenão”, disse Magrão, “o Telê fazia marcação cerrada, ele não dava mole, estávamos há 40 dias na seca, eu era magro como um cabo de vas­soura, perdia de dois a três quilos por jogo, já tinha tomado quase toda cerveja e nada de fazer xixi. Depois de um tempão, Tele foi até a salinha e disse: ‘Pô, Sócrates, não sai nada aí?’ Tá difícil, chefe”.

Telê emendou: “Então vou levar os jogadores pra jantar, o Juca Kfouri te leva, ok?” O cara da Fifa até cansou vendo Sócrates derro­tar a geladeira todinha. Geladeira vazia, com muito custo conseguiu fazer meio tubinho de xixi e disse pro cara: “Não tem mais?” Chegou ao hotel todo alegrão e foi aquela farra.

Sexta eu conto mais.

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