De que é feito o cotidiano? De que forma o dia a dia pequeno, de todos nós, consegue engrandecer o dia a dia do outro? O Japão do Pós-Guerra. A ocidentalização desenfreada. A intersecção de antigos e novos costumes. Os cuidados com a família. O trabalho a consumir o tempo dos jovens e dos adultos. Os mesmos jovens e adultos que já não têm tempo para os pais e avós.

O encontro de um casal de idosos com seus filhos e netos. O filho, médico, ocupado dia e noite com os pacientes. A filha, em seu salão de beleza, com o tempo cronometrado com os clientes. Os netos imersos em suas atividades cotidianas. Todos, cada qual a seu modo, desinteressados da presença do casal. Então, a nora Noriko. Viúva de um dos filhos do casal, morto na guerra, também trabalhando fora para viver. A difícil disponibilidade para cuidar do outro.

A solução? Ofertar ao casal de idosos alguns dias numa estação termal nos arredores. Entretanto, passada apenas uma noite, o retorno dos pais à casa dos filhos. O desapontamento da família. A tranquilidade cotidiana novamente perdida. A exceção? Novamente, Noriko. A nora que, mesmo perdido o vínculo com aqueles idosos, os trata com atenção, gentileza e sem formalidades. A nora que, compartilhando a casa com aquela senhora, com ela desabrocha um diálogo íntimo de mulheres, uma devoção de afeto realmente sincero.

A bondade… O dom de não ser dominado pela ambição. A capacidade de, a despeito de falhar e errar, como qualquer ser humano, conseguir perceber o que se passa no íntimo de alguém. Conseguir colocar-se no lugar do outro. O comportamento de exceção de Noriko. A salvar o deteriorado cotidiano de todos nós. No filme, o desgaste de uma das mais caras relações sociais: o convívio familiar. No filme, o desalento de um casal de idosos que se percebe na contramão de sua história pessoal.

A interpretação do que é se sentir pequeno, na amplidão anônima de uma cidade grande. A interpretação do que é se saber indesejado, no embaraço cotidiano dos filhos. Uma narrativa fílmica ímpar. Pausada e profundamente delicada. “Era uma Vez em Tóquio” é desses filmes que nos fazem coser para dentro… e dar nome e sobrenome ao vazio e a solidão.

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