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7 de julho de 2022 | 12:56
Jornal Tribuna Ribeirão

Terrorismo supremacista e teoria da substituição

Assistimos a mais um massacre, no último sábado (14/5), no país que se diz o mais democrático do mundo. Um homem branco, forte­mente armado, matou dez pessoas em um supermercado na região de Buffalo, estado de Nova Iorque. Ali, onde os moradores são predomi­nantemente negros. Ele escreveu uma longa mensagem, publicada em suas redes, afirmando que os fregueses do supermercado eram de uma cultura que buscava “substituir etnicamente meu próprio povo”. Esta é a mesma matriz ideológica daquilo que ceifou a vida de milhões de pesso­as na Europa e que chamamos de nazismo.

Não foi a primeira vez que um ataque terrorista, com essas mesmas matizes, ocorreu nos Estados Unidos. Em uma sinagoga de Pittsburgh, em 2018, também um homem branco, com um histórico de postagens antissemitas na internet, matou barbaramente 11 fiéis da comunidade, culpando os judeus por permitirem a entrada de “invasores” imigrantes nos Estados Unidos. No ano seguinte, outro homem branco, irritado com o que chamou de “invasão hispânica do Texas”, abriu fogo contra clientes em uma loja do Walmart em El Paso, deixando 23 pessoas mor­tas. Ele disse à polícia que havia tentado matar mexicanos.

Três ataques ligados por uma crença comum em constante mutação, agora conhecida como “teoria da substituição” — a noção de que as elites do ocidente querem “substituir” e enfraquecer os americanos brancos. Nos extremos da vida americana, a teoria da substituição tornou-se um motor de terror racista, ajudando a inspirar uma onda de ataques em massa nos últimos anos. Foi o que alimentou o comício de direita de 2017 em Charlottesville, na Virgínia, que explodiu em extrema violência. O neonazismo caminha a passos rápidos nos Estados Unidos. E isso é uma ameaça a todo o mundo.

Um dos artífices dessa teoria é o escritor francês Renaud Camus. Antes considerado um artista de vanguarda e um ícone do movimento gay, tor­nou-se uma referência ideológica de um dos setores mais radicais da direita global. Seu pensamento está por trás do discursos dos responsáveis pelos últimos ataques racistas, inclusive em Buffalo. Esse vínculo nasceu com seu livro Le Grand Remplacement (A grande substituição). Ele expõe a teoria de que a Europa branca e cristã está sendo destruída por hordas de imigrantes negros e de tez escura do norte da África e da África subsariana.

Sua teoria foi acolhida por grupos supremacistas dos Estados Uni­dos. Palavras de ordem como “não nos substituirão” eram gritadas pelos manifestantes de Charlottesville. A teoria da substituição, antes confina­da em grupos subterrâneos, torna-se cada vez mais popular nos Estados Unidos. Ela se tornou uma força potente na mídia e na política conser­vadoras, onde foi remodelada para atrair grandes audiências eretuítes. Essas ideias se tornaram comuns no Partido Republicano, ditas em voz alta no Congresso, e abraçadas por uma crescente variedade de candida­tos de direita e lideranças reacionárias, como Donald Trump.

Nenhuma figura pública promoveu a teoria da substituição de forma mais implacável do que o apresentador da Fox News, Tucker Carlson, que fez da mudança demográfica um tema central de seu programa, des­de que ingressou no horário nobre, em 2016. Uma investigação do New York Times, publicada este mês, mostrou que, em mais de 400 episódios de seu programa, Carlson ampliou a noção de que políticos democratas e outros grupos de elite querem forçar mudanças demográficas por meio da imigração. É assustador como essas ideias têm conquistado corações e mentes da população.

Recomendo a leitura de um artigo publicado pelo professor Leonardo Sacramento em suas redes sociais (https://www.facebook.com/leonardo.sacramento.777701). Ele inicia assim o seu texto: “o principal grupo terrorista do planeta, hoje, é o supremacismo branco. Precisamos falar abertamente que, se existe uma Guerra contra o Terror, essa guerra é contra o supremacismo branco e ocidental.” Trata-se de um texto forte que aprofunda a discussão do supremacismo branco que já lança raízes também entre nós aqui no Brasil, escudado pela ascensão do governo de extrema direita. Kyrie eleison!

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