Quando estudante na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, tive oportunidade de ouvir afirmação do poeta Pau­lo Bomfim, onde ele dizia que todos nós algum dia voltamos ao lugar de onde nunca partimos. Agradecia homenagem que lhe era prestada e realçava assim a importância da Faculdade em sua vida. Embora tenha cursado somente até o terceiro ano, continuou fre­quentando a escola, em cujas arcadas bebia inspiração para sua obra e achava tranquilidade num centro de cidade caótico. Sua ligação era tanta com a Velha Academia, que seu nome figura hoje em uma de suas arcadas, honraria destinada a poucos.

O paulistano Paulo Bomfim abandonou seus estudos de Direito para se dedicar ao jornalismo, onde pontificou em vários de seus órgãos escritos, falados e televisivos. Foi curador da Fundação An­chieta ( TV Cultura ) e presidente do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo. Paralelamente, desenvolveu uma notável carreira de poeta das coisas paulistas. Seu primeiro livro, Antônio Triste, de 1946, com ilustração de sua amiga Tarsila do Amaral, recebeu o prê­mio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Seguiram outras 36 obras, várias premiadas e muitas traduzidas para o francês, ale­mão, inglês, italiano e espanhol. Em 1963, foi eleito para a Academia Paulista de Letras. “Ele é um modernista que não desdenha a rima, a pontuação, a métrica, o soneto”, dele falou o ensaísta Sérgio Milliet.

Gosto muito de sua frase. Na verdade, no decurso de nossa vida, nossas raízes permanecem em vários lugares, mesmo que deles nos afastemos. Nossa casa paterna, nossos quintais, nossos brinquedos perdem-se no tempo, mas não nos abandonam. O local onde curti­mos nossos companheiros e nossas amizades tem um posto perma­nente em nossos corações. Lembro-me de uma visita que fiz à casa onde nasci e da qual me afastei por muitos anos. Foi uma sensação gostosa rever suas salas, seus quartos, seus jardins, evocar experiências que nela vivi. Engraçado que o menino que eu fora achou tudo muito pequeno, acanhado, pois a imagem que havia retido refletia a relação do tama­nho do menino pequeno com a grande dimensão das coisas.

Em 2017, convidado por minha amiga querida, Adriana Sil­va, compareci ao Otoniel Mota para gravar um depoimento para o livro que ela estava elaborando. Há mais de quarenta anos não voltava à escola que tanto significou para mim e eis que revivo a minha vida e experiência de adolescente. Lá estava a escadaria, lá estavam os vitrais e mesmo reformas que foram feitas não apa­garam a emoção de ali voltar, como se tivessem passado somente alguns horas e não tanto tempo.

Pouco antes da pandemia, compromisso profissional me levou às proximidades do Largo de São Francisco, em São Paulo. Era de tarde, tinha um tempinho e não resisti a adentrar a Velha Academia. Suas arcadas estavam silentes e vazias, mas ali escutei o vozerio de nossa turma, as brincadeiras, os sonhos e as reali­zações que prevíamos. Subi a escadaria central e entrei no Salão Nobre que tanto frequentei.

Relembrei memoráveis momentos: grandes conferências, defesas de teses, concertos. Continuei andando até a Sala da Congregação e das Becas, que frequentei por dois anos, como representante do Corpo Discente e terminei na grande bibliote­ca. À senhora que estava na portaria, disse minha turma e que não procurava nenhum livro, mas gostaria de rever o local onde passava bastante tempo lendo e pesquisando. Franqueou-me a entrada, com carinhosa advertência: “Doutor, fique o tempo que quiser”. Sentei-me numa das inúmeras mesas e parece que via meus colegas folheando livros e tomando anotações.

Assim são os lugares de nossa vida, que marcaram nossa existência e continuam a nos influenciar. Lugares de onde nunca partimos quando a eles voltamos.