No dia 29 de dezembro passado, ouvi atentamente uma entrevista que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, concedeu ao Datena pela Rádio Bandeirantes. Foi uma longa entrevista sobre as críticas que o ministro da Suprema Corte vem sofrendo por “parecer” benevolente demais para com réus presos nas operações como a da Lava Jato. Enquanto juízes de primeira instância decretam a prisão, Gilmar Mendes decreta o habeas corpus de inúmeros presos provisórios para que não atrapalhem as investigações sobre os crimes que lhes são imputados.

Gilmar Mendes alerta sobre o autoritarismo que se impõe pelo Poder Judiciário a dezenas de réus ainda não condenados, que segundo ele, ferem o Código Penal e não por último a própria Constituição da República. Afirmou também que a mídia gosta de presos ricos e não divulga as dezenas de ações de soltura de pessoas pobres, muitas vezes injustamente presas por anos em cárceres desumanos.

Sugeriu que a imprensa esteja mais atenta aos trabalhos exaustivos da Suprema Corte, que além de zelar pela Constituição e pelos direitos de todos os cidadãos brasileiros, só divulga decisões relacionados com pessoas importantes aos olhos da sociedade, da política e que são economicamente privilegiados.

Disse falar com “autoridade” porque em seu gabinete trabalham cinco ex-detentos reinseridos na sociedade. Disse-se tranquilo em relação às críticas que sofre pela sociedade e pela mídia. Falou que existe um protagonismo populista entre os magistrados e certa disputa de poder, que teria seus dias contados. Acredita que os poderes constituídos deverão chegar a um consenso através do diálogo inteligente, acadêmico, doutrinal e não medíocre.

Quando perguntado sobre as críticas que sofre pelas redes sociais, culpou novamente a mídia tendenciosa, que seleciona o que publica, para vender manchetes. “Bandido rico dá Ibope, bandido pobre não é de interesse da imprensa”. “É urgente que a mídia faça uma auto-avaliação daquilo que divulga, deixando de jogar personagens do Judiciário uns contra os outros”, afirmou.

Criticou largamente Rodrigo Janot e deixou a impressão que o seu assessor na Procuradoria-Geral da República, Marcelo Miller, foram “um tiro no próprio pé”, referindo-se ao evento desastroso dos irmãos Joesley e Wesley Batista, bem como à delação premiada de Roberto Machado em que se pedia a prisão de José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, cujas denúncias acabaram arquivadas, sem provas e sem verdades comprovadas.

Finalmente perguntado por Datena o que espera para este novo ano de 2018, Gilmar Mendes respondeu que tem grande esperança de que o Brasil voltará a viver a serenidade, a colegialidade entre os poderes constituídos, especialmente no interior do Poder Judiciário. Terminou a entrevista afirmando que o governo Dilma Rousseff criou no Brasil uma tragédia institucional.

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