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13 de agosto de 2022 | 16:29
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Destaque Saúde

Tratamento inovador contra o câncer na saúde pública de RP

Adriana Dorazi – especial para o Tribuna Ribeirão
*com informações da assesso­ria do Gov. de SP / USP

Pacientes de Ribeirão Preto e região que estão em trata­mento contra o câncer ganha­ram nova esperança nesta semana quando foram entre­gues as obras do Centro de Terapia Avançada (Nutera) que faz parte do maior pro­grama avançado para a doen­ça da América Latina.

Esse centro de produção da terapia genética CAR-T Cell usa células de defesa do pró­prio paciente no combate ao câncer e recebeu investimento de R$ 200 milhões do governo estadual. A técnica inovadora já se mostrou altamente eficaz no tratamento de alguns tipos de câncer de sangue, como linfoma e leucemia linfoide aguda. No Brasil, o estudo vem sendo de­senvolvido em parceria entre Instituto Butantan, USP e He­mocentro de Ribeirão Preto.

Interior do Centro de Terapia Avançada (Nutera) que faz parte do maior programa avançado contra o câncer, da América Latina

O programa está sob super­visão da Secretaria de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Estado. O Nutera vai produzir a terapia de recep­tor quimérico de antígeno (em tradução livre da sigla em in­glês), que utiliza células T para combater o câncer de sangue. A capacidade inicial de trata­mento é de até 300 pacientes por ano. São 12 unidades de produção da terapia com ca­pacidade para fazer de 25 a 30 atendimentos mensais.

Embora já seja aplicada em alguns países, a terapia celular tem como maior obstáculo o custo elevado, que pode chegar a US$ 500 mil por aplicação em cada paciente. As unidades de São Paulo (Nucel) e de Ribei­rão Preto (Nutera) vão contar com estruturas que permitirão que os principais processos da nova tecnologia – produção, desenvolvimento, armazena­mento e aplicação da terapia celular – sejam efetuados em solo paulista. O objetivo é re­duzir ao máximo o custo em larga escala da terapia e fazer com que ela chegue ao SUS.

As instalações incluem la­boratórios de controle de qua­lidade, salas de criopreserva­ção, salas de produção de vírus, salas limpas de produção de células CAR-T, salas de prepa­ro de meios e soluções e áreas destinadas ao armazenamento do produto final e dos insumos em tanques criogênicos.

Mais sobre a inovação
A terapia celular CAR-T foi desenvolvida no Centro de Terapia Celular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. O primeiro voluntá­rio, que recebeu o tratamento experimental há dois anos, al­cançou a remissão total de um linfoma em estágio terminal. Outros pacientes que optaram pelo tratamento também tive­ram remissão.

“A terapia celular eleva o estado de São Paulo à seme­lhança dos principais países da Europa, Estados Unidos e Chi­na. Este tratamento, além de ser inovador e curador, com o tempo também será acessível. Trabalhamos para que todos os brasileiros, sem distinção, tenham acesso a este tratamen­to”, afirmou o secretário de Ci­ência, Pesquisa e Desenvolvi­mento em Saúde, David Uip.

Um estudo clínico com 30 voluntários deve ser feito ainda este ano para comprovação da eficácia e segurança do trata­mento em pacientes com linfo­ma não-Hodgkin de células B, câncer no sangue considerado mais agressivo.

Próximos passos
Como a terapia celular ain­da está em fase experimental no Brasil, os pacientes foram tratados até agora de forma compassiva – por decisão mé­dica, quando o câncer está em estágio avançado e não há ou­tra alternativa de terapia. Esse tipo de pesquisa ainda não influencia uma possível apro­vação final do tratamento pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas for­talece a possibilidade de apro­vação de um estudo clínico com mais voluntários.

“Essa é a evolução do tra­tamento do câncer, que co­meçou ainda no século 19. Desde as cirurgias, radiote­rapia, quimioterapia e, mais recentemente, o aparecimento de drogas-alvo, podemos dizer que avançamos e moderni­zamos todo esse processo, e o resultado é a terapia com célu­las CAR-T. Estamos falando da possibilidade de cura e baixa toxicidade de alguns tipos de câncer sanguíneos, trata-se do tratamento do futuro”, desta­cou Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan e coor­denador do estudo.

Como funciona
A tecnologia celular CAR-T é um tipo de imunoterapia que utiliza linfócitos T, células do sis­tema imune responsáveis por combater agentes patogênicos e matar células infectadas.

O tratamento consiste em retirar e isolar os linfócitos T do paciente, ativá-los, “repro­gramá-los” para conseguirem identificar e combater o câncer e depois inseri-los de volta no organismo do indivíduo. As­sim, as células de defesa voltam com mais força para eliminar as células tumorais. Todo o processo pode durar cerca de dois meses.

Após a coleta do sangue, a amostra passa por um proces­so de separação para selecio­nar apenas o grupo celular de interesse – ou seja, as células T. Depois, os pesquisadores apli­cam, em laboratório, um rea­gente que estimula a ativação dessas células.

Com os linfócitos T ativa­dos e multiplicados, eles são colocados em contato com um vetor viral de lentivírus modificado, incapaz de causar doença. O vetor contém a in­formação genética de um re­ceptor que identifica e se liga ao antígeno CD-19, o mesmo presente na superfície das cé­lulas tumorais de neoplasias hematológicas.

Por conter a informação ge­nética do receptor do CD-19, o vetor faz a célula T expressá-lo em sua superfície, originan­do as células CAR-T que serão usadas na terapia. O produto é congelado e passa por rigorosos testes de controle de qualidade antes de ser aplicado em um processo semelhante à transfu­são de sangue. De volta à cor­rente sanguínea, esse conjunto de células CAR-T reconhece e se liga às células do câncer, in­duzindo a morte celular.

O governador Rodrigo Garcia, o prefeito Duarte Nogueira e autoridades na última segunda-feira durante visitas ao Hemocentro e ao HC de Ribeirão Preto para anúncio do programa de tratamento avançado contra o câncer

Mais investimentos na saúde pública de RP
Em uma parceria inédita, a Universidade de São Paulo – USP vai investir R$ 217 milhões no Hospital das Clínicas de São Paulo e no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Desse total, R$ 150 milhões serão destinados à ampliação do complexo do Hospi­tal das Clínicas, ligado à Facul­dade de Medicina (FM), e R$ 67 milhões ao Hospital das Clínicas ligado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP).

O reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, ressaltou que “a parceria da USP com o HC e com o HCRP reflete o reconhecimento, pela Universidade, da comple­mentaridade entre as atividades das instituições. Certamente, o ensino, a pesquisa e a extensão das unidades da Universidade que desenvolvem atividades nos complexos do HC e do HCRP serão realizados com maior ex­celência. É também importante o apoio da USP para a assistência da saúde da população do Esta­do de São Paulo, principalmente neste momento de pandemia”.

Segundo ele, a iniciativa faz par­te de um plano de investimentos da Reitoria para a utilização dos recursos do exercício de 2022 nos anos de 2022 e 2023, em áreas estratégicas para a Uni­versidade: aperfeiçoamento das atividades acadêmicas, projetos de sustentabilidade, apoio à permanência e pertencimento, relacionamento com a socieda­de e instâncias governamentais, aperfeiçoamento da estrutura dos museus e órgãos de cultura e extensão e construção de um Distrito Tecnológico do Jaguaré. O plano foi aprovado pelo Con­selho Universitário, em reunião realizada no dia 21 de junho.

Novo instituto
No Hospital das Clínicas de São Paulo, serão implantados dois novos prédios: o Centro de Pesquisas Clínicas e o Instituto Dr. Ovídio Pires de Campos, que receberão recursos da ordem de R$ 130 milhões. A ampliação do complexo com a construção dos edifícios vai aumentar a capaci­dade de atendimento do HC nas especialidades de oftalmologia, otorrinolaringologia, bucomaxi­lo, cabeça e pescoço e cirurgia plástica craniofacial.

O Instituto Dr. Ovídio Pires de Campos se juntará aos oito já existentes no complexo do HC. As obras devem ser iniciadas no primeiro trimestre de 2023, com duração prevista de 24 meses. O instituto contará com 14 salas cirúrgicas, 17 leitos de recupe­ração cirúrgica e outros 10 de UTI. A nova estrutura permitirá ainda aumentar em 178% a capacidade mensal de realiza­ção de cirurgias ambulatoriais, em 75% a realização de cirurgias de grande porte, que necessi­tam de internação, e em 47% as consultas ambulatoriais nas especialidades abrangidas.

O novo Centro de Pesquisas Clínicas será uma estrutura centralizada e profissionalizada para o recrutamento e acompa­nhamento de pacientes e volun­tários dos estudos clínicos que são realizados no complexo do HC, seguindo padrões nacionais e internacionais em pesquisa avançada. Além disso, R$ 20 milhões serão destinados para a aquisição de equipamentos para os centros cirúrgicos.

Oncologia e terapia intensiva
Do total de R$ 67 milhões liberados pela USP ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, R$ 50 milhões serão destinados ao Serviço de Oncologia e outros R$ 17 milhões para reforma e ampliação do Serviço de Terapia Intensiva do hospital.

Serão criados um Serviço de Diagnóstico Rápido e um ambu­latório integrado de Oncologia, além do aumento de 25 novos leitos oncológicos, entre outras estruturas. Com o investimento, a unidade terá um incremento de 33% na capacidade de interna­ções em oncologia, passando de 4,7 mil para 6,3 mil ao ano.

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