Jornal Tribuna Ribeirão

‘Um abajur cor de carne’

“Menina veneno”, música do cantor inglês Ritchie, já estava no Brasil havia muitos anos e tocava em bandas desconhecidas. De repente, resolveu encarar a carreira solo e gravou esta canção nos anos 80. Para sua surpresa, estourou nacionalmente. A música era interessante e todo mundo cantava “Um abajur cor de carne”, sem perceber que a letra poderia ser outra.

Eu mesmo, muitas vezes, me peguei cantarolando, e tal frase passava despercebida, até que não sei quem comentou: “Buenão, na música ‘Menina veneno’, a letra não é ‘Um abajur cor de carne’, e sim ‘Um abajur cor de carmim’”.

Fui conferir direitinho e saquei que fomos enganados porque o can­tor forçava mais o “a” de carmim e não o “i”. Talvez sua língua, meia que abrasileirada, não lhe permitia a pronúncia correta e ainda não preju­dicava a rima. Só sei que sempre imaginei um quarto com lençol azul e abajur cor de carne (hehehe).

Outro engano em letra de música, mas desta vez foi comigo. Certa noite eu cantava no Ponto Chic e resolvi cantar umas músicas de Paulo Vanzolini para um amigo jornalista que gostava de sua obra. Vanzolini era cientista, dedicava seus dias às cobras do Jardim Botânico, em Sampa.

Quando a noite se avizinhava, partia para seu outro lado. Amava a noite, era um boêmio de carteirinha, um compositor de primeira, autor de “Cuitelinho”, “Samba erudito”, “Volta por cima” e, entre tantas, “Ron­da”, uma das músicas mais cantadas nas noites.

Num intervalo fui prosear com meu amigo jornalista que agradeceu e falou: “Buenão, na letra de ‘Samba erudito’ que acaba de cantar, você comete um erro crucial quando diz ‘Fui ao fundo do mar como o velho Picasso’… Não é Picasso, Buenão, e sim ‘Picar’.”

Meio que sem jeito, argumentei pensar num fundo do mar pintado por Picasso, o que não fugia do que a letra me encaminhava e ele me corrigiu, dizendo: “Buenão, Picar foi o inventor do submarino”. Correção feita, nunca mais cantei errado, até caprichava mais no erre, Picarrr “hehehe”.

Escrevi acima que “Ronda” era uma das músicas mais pedidas na noite. Só os cantores e músicos da noite sabem o que passam para desco­brir o que os clientes pedem através de bilhetes, até porque não sabem o nome correto da música. Veja essa.

Paulinho Brasília cantava no Bar Mania, era dono e levou um sus­to quando recebeu, via garçom, um bilhete escrito: “Por favor, cante Honda”. O cara meteu ali um modelo de carro e moto, esse passou longe da aula de português, deu o que fazer pro Paulinho parar de rir. Só ele sabia porque…

Mais uma que Paulinho me contou. Bar Mania era o berço da MPB aqui em Ribeirão Preto, outro tipo de música lá nem pensar. Certa noite, ele estava cantando, poucos clientes e de uma mesa com umas oito pes­soas veio um bilhete dizendo que havia uma dupla entre eles.

Pediram pra dar uma canja, ele disse que músicas sertanejas não era a linha do bar, disseram que não eram sertanejos. Paulinho, então, permitiu. A dupla subiu ao palco e mandou ver: “Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau”. Eram os irmãos Kleiton e Kledir. Surpresa geral, o show continuou pra poucos.

Outra noite, bar lotado, outro bilhete: “Paulinho, por favor, cante ‘No mandiocal’. Paulinho não sabia a música e até pensou ser sertaneja, coisa que ele não cantava e ficou na dele. O cara repetiu o pedido, Paulinho falou ao microfone que não conhecia a música, o cara foi até ele e disse: “Paulinho, você sempre canta essa música, parceiro”.

Nosso cantor pediu a ele que cantasse um pedacinho e o cara man­dou essa “No, no mandiocal, no, no mandiocal”. Paulinho quase caiu do seu banquinho de tanto rir. Era a música “Não chores mais”, versão de Stevie Wonder que Gilberto Gil gravou em português, mas no comeci­nho ele canta em inglês e o caboclo entendia “No mandiocal”.

Vou ficando por aqui entre lençóis azuis e um abajur cor de carne (heheheh).

Abreijos amigos, sexta conto mais.

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