A pandemia do coronavírus no Brasil ajudou a escancarar o cotidiano de uma sociedade que há muito tempo deixou de ser, ou que nunca foi àquelasociedade pautada por uma democracia racial, com um povo solicito e gentil citando livro “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre. Mas o tempo mostrou que a vivencia cotidiana não era tão harmoniosa assim. E esse sofisma social acabou mostrando para o mundo um uma realidade que na prática nunca existiu.

O Brasil está entre os cinco países que mais mata mulhe­res no mundo, apesar da Lei Maria da Penha. A proteção das nossas crianças e adolescentes determinado pelo ECA, que completa trinta anos, continua na fila para a sua materializa­ção. E o pior de tudo é ver estas leis sendo vilipendiadas pelo fundamentalismo religioso.

O fechamento das escolas devido à pandemia do coro­navírus mostrou a realidade de uma sociedade dividida em castas, onde os estudantes das redes públicas, onde a maioria é de pretos e pobres são vilipendiados o tempo todo, e agora com a pandemia, tudo piorou. Como às escolas públicas sempre estiveram numa certa zona de conforto, com os seus monstros e espectros convivendo com certa harmonia neste ambiente, e estes malefícios que eram escamoteados vieram à tona.

Há uma dicotomia, que persiste em pleno século 21, que divide a educação entre formal e informal, cabendo à escola somente reproduzir os conhecimentos científicos, a as famílias a educação ética e moral, no entanto a Consti­tuição cidadã de 1988, no seu capítulo educação extinguiu está dicotomia, mas como no Brasil há um fenômeno que só acontece por aqui, que para se cumprir a lei, tem que acionar o judiciário, e como a maioria acha melhor deixar pra lá, não avançamos.

A educação básica pública no Brasil, com raros momen­tos de lucidez, sempre esteve no último lugar nas priorida­des dos governantes de plantão. A LDBEN, A Constituição e o ECA, não conseguiram elevar o patamar educacional da população pobre e excluída. Até meados do século 20, tínhamos mais da metade da população brasileira forma­das por analfabetos – melhoramos um pouco, pois agora a maioria é de analfabetos funcionais.

O momento que vivemos agora é incomensurável, pois quem nunca se preocupou com as garantias protetivas es­tabelecidas pelo ECA, para as crianças e os adolescentes, se tornam ferrenhos defensores desses direitos, quando o argu­mento é o retorno das aulas presenciais em plena pandemia.

Aqueles defensores ferrenhos do ensino domiciliar (o chamado: homeschooling), ainda não se manifestaram para dar apoio e subsídios aos pais, que não estão sabendo o que fazer, com os seus filhos o tempo todo em casa. Aí vemos que aquela velha e ultrapassada falácia, que quem educa é somen­te a família foi para o espaço.

E neste caldeirão de alquimia desencontrada, a receita proposta não consegue encontrar o ponto de criação do elixir, e a receita sempre desanda. A discussão sobre o retorno das aulas presenciais tem que ser ampla, e abarcar toda a socie­dade, e levar em conta principalmente a opinião dos educan­dos – saber o que eles pensam e esperam da escola e da vida. Afinal a função da escola é formar cidadãos. Será que isso está acontecendo?