Vacina politizada

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No início do século XX, Rodrigues Alves assumiu a Presi­dência da República, encontrando a cidade do Rio de Janeiro mergulhadana mais vasta imundice, atingida especialmente pela epidemia da varíola. Nomeou o paulista Oswaldo Cruz para administrar a saúde pública. Pereira Passos era o prefeito da cidade que, em virtude da política por ele desenvolvida, ganhou o apelido de “Bota-Abaixo”.

O “Bota-Abaixo” e sua equipe, com forte financiamen­to estrangeiro, derrubou um grande número de “cortiços” então existentes na área central do Rio. Naquele contexto, pôs abaixo o Morro do Castelo, expulsando os moradores da área, transformando o local no ponto de encontro da zona norte com a zona sul, no centro da cidade. Trata-se hoje da Espla­nada do Castelo.

Segundo uma das versões existentes, os moradores do Morro do castelo foram habitar outro morro, localizado nas vizinhanças do porto. Afirma-se que o morro era coberto de pés de favas. Foi batizado como Morro da Favela, o primeiro a sediar “cortiços” em todo o Brasil.

Oswaldo Cruz implantou a política da vacinação obrigató­ria. Os opositores de Rodrigues Alves bateram-se contra, sus­tentando que os brasileiros livres não podiam ser obrigados compulsoriamente a vacinar-se. As Forças Armadas puseram­-se ao lado do Presidente da República e de Oswaldo Cruz.

A vacinação foi concluída no Rio e expandida para todo o território nacional. A malária praticamente foi derrotada pela vacina. Os cronistas da época deixaram anotado que Oswaldo Cruz, uma das figuras mais extraordinárias do Brasil, após a vacinação, quando identificado caminhando pelas ruas cario­cas, era vaiado por aqueles que tiveram suas vidas garantidas pela política por ele implantada. Deve ser lembrado hoje em dia, o que não se vê e nem se ouve, que o extraordinário Oswaldo Cruz, nascido em São Luís de Paraitinga, Estado de São Paulo, emprestou seu nome para batizar a “FIOCRUZ”. Esqueceram-se dele nas últimas cerimônias televisadas.

Outro nome lançado ao olvido na prolongada cerimônia comemorativa do lançamento da atual política de vacinação regida pela “FIOCRUZ”, foi o do Dr. Antônio Sérgio da Silva Arouca, paulista, nascido em Ribeirão Preto, onde cursou a sua Faculdade de Medicina. O Dr. Arouca dirigiu a “FIOCRUZ” durante o governo do Presidente José Sarney. Arouca foi um dos principais batalhadores para a instalação do SUS no Brasil, uma das mais notáveis entidades internacionais criadas para a saúde pública. O seu lema: “onde houver dinheiro público, o tratamento de saúde tem de ser universal”. Ou seja, para todos. Contudo, ainda que o SUS tenha realizado um trabalho extra­ordinário, forçoso considerar que o seu lema inaugural ainda não foi aplicado universalmente no Brasil.

Na cerimônia política no lançamento da vacinação adminis­trada agora pela “FIOCRUZ”, inúmeras autoridades, até mesmo estrangeiras, usaram o microfone para marcar o fato. Tivemos oportunidade de acompanhar pela televisão. Uma delas encerrou sua fala, invocando os versos do poeta espanhol “Antônio Rodri­gues”. Na verdade o poeta chamava-se “Antônio Machado” e não “Rodrigues”. Os versos de Antônio Machado são inesquecíveis: “Nunca persegui a glória. Caminhante, são tuas pegadas o cami­nho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao andar. Ao andar se faz o caminho e ao voltar os olhos atrás se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar”.

Vamos tomar a vacina não somente para salvar nossa vida. Mas a vida de toda a nossa família. De toda a nossa gente porque caminhante, não há caminho, o caminho se faz andando, conforme ensinou Antônio Machado.