‘André de sapato novo’

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Ontem, passando por uma residência ali nas proximidades da praça Sete de Setembro, me chegou o som de uma música que já ouvi nem sei quantas vezes, vinha de uma antiga casa cuja porta estava entreaberta, era o som de um maravilhoso chorinho que logo identifiquei… “André de sapato novo”, de André Victor Oliva.

Existem músicos que compõem uma música e ela cai no gosto popular. Sempre digo que este não precisa compor mais nada, é a sua obra-prima e como Deus escolhe a estrela que vai brilhar, tenho certeza que naquele momento escolheu tal compositor pra lhe dar tal presente. Foi o momento em que o cavalo branco passou pelo André e ele não marcou bobeira, pulou em cima.

Cheguei em casa, fui fazer uma visita no Google – que me passou informações preciosas sobre André. Por transitar nas noites e madrugadas e viver boemias das quais morro de sauda­des, em companhia de pessoas que só me fizeram crescer cultu­ralmente, ouvi histórias e mais histórias de grandes boêmios que viveram épocas maravilhosas de quando a noite era saudável.

Li que André, antes de ser conhecido como André do Saxofo­ne, tocava clarinete e compôs este chorinho porque havia com­prado um par de sapatos novos, mas o calçado estava apertado pra dedéu. Ela foi a um baile e os sapatos moíam seus dedos, que amontoados uns sobre os outros até ganharam calos.

Naquele tempo o camarada tinha que dançar com a dama mostrando que entendia da bagaça e no maior respeito. Seus pés doíam tanto que atrapalhava sua performance, obrigan­do-o a parar. Ali lhe bateu a luz de compor uma música que tivesse várias paradas dentro da melodia, e sempre que volta­va a nota inicial era “mi” grave.

Isso foi nos anos 1930 e André vivia em rodas de choro comandadas por Pixinguinha, que adorava sua composição “André de sapato novo”. Quando ele dava em seu “saxa” a nota “mi” todo mundo já sabia qual era a música a ser tocada.

Certa vez, estava eu com uma galera de Ribeirão Preto no Sesc Bertioga, e como tudo que o Sesc faz, faz bem feito, sempre contratam, para alegrar as noites na colônia, artistas de várias épocas, agradando todas as gerações. Desta vez, numa das noites era Sergio Cabral, jornalista, compositor e historiador que com um grupo de cantores, contava histórias e nos apresentava canções imortais.

Quando entrou na parte do chorinho ele foi falar justa­mente da música “André de sapato novo”, e para que o causo ficasse mais interessante, contou um pouco sobre Ary Barro­so. Disse que Ary morava no Morro no Leme, bairro pegado a Copacabana, o local era conhecido como “Ladeira do Ary” – conheci tudo ali –, e numa noite em que chovia muito, parece até coisa de Deus, “aí entra o que escrevi acima”. Ele decidiu não sair pra beber e tocar como costumeiramente fa­zia. Colocou seu litrão de uísque ao lado do piano e depois de algumas generosas doses, uma luz o iluminou e ele compôs sua maior obra, “Aquarela do Brasil”.

O fígado e os pulmões pediam para Ary maneirar, mas o compositor não lhes dava a mínima, amava beber e fumar, daí era um tal de interna e sai de hospital sem fim. Numa destas, André foi com seu sapato novo visitar o amigo. Ary era ma­grinho que só, e ele estava afundado nos lençóis da maca do hospital, André entrou e seus sapatos chiavam – nhec, nhec, nhec. Chegou pertinho do amigo e viu que ele parecia estar dormindo, ficou ali um tempo e nada dele acordar, até que resolveu ir embora. Ao sair, os sapatos fizeram o tal de nhec, nhec e, quando estava perto da porta, ouviu a voz de Ary ordenando: “André, volte aqui”… Os sapatos te entregaram, amigo. E o papo foi longe.

Sexta conto mais.

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