Nunca, em toda a história do nosso país, fomos tão humilhados por uma autoridade pública como na entrevista à revista Veja prestada pelo colombiano Vélez Rodriguez, ministro de plantão na pasta da Educação no governo de ex­trema-direita em Brasília. Ele disse que brasileiros roubam até hotéis quando viajam ao exterior: “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba assento sal­va-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”, disse Rodríguez. Esta é apenas mais uma das sandices de um dos ministros do núcleo ideológico duro do governo Bolsonaro. Generalizações irresponsáveis e agressivas.


Mas a tosquice do ministro colombiano chegou ao ponto de plantar fake news em uma das revistas de maior circulação no Brasil. Atacou Cazuza, morto em 1990, por algo que ele nunca disse. A frase “Liberdade é passar a mão na bunda do guarda”, que Rodriguez atribuiu ao cantor, foi popularizada pelos humoristas do “Casseta & Planeta”. A mãe de Cazuza já promete um processo. Ainda criticou a cineasta Carla Camurati por não ter retratado com todo respeito a figura de Dom João VI no filme “Carlota Joa­quina”. Lembrando que se trata de uma bem humorada paródia sobre a fuga do rei português para o Brasil. Aliás, o ministro é monarquista.

Mas não ficou só nisso. Afirmou mais uma vez que vai acabar com a universidade pública. “Em nenhum país do mundo a universidade chega para todos. Ela representa uma elite intelectual, para a qual nem todos estão preparados”, afir­mou. Desta forma, ele propõe um verdadeiro passo atrás em todas as políticas de inclusão educacional implantadas desde a redemocratização na década de 80, afrontando princípios constitucionais e legais básicos que, a duras penas, foram con­quistados por todo o povo brasileiro. Alinhado aos grupos mais conservadores, Rodríguez ainda defende o projeto da Escola sem Partido, para acabar com qualquer sentido crítico do trabalho dos professores(as) em sala de aula.

Defendeu ainda a volta das aulas de moral e cívica, como a grande solução dos graves problemas que afligem a nossa educação. Aliás, eu mesmo cheguei a lecionar esta disci­plina e não tenho boas recordações. Grande desinteresse dos alunos, era vista apenas para completar a carga horária dos professores, já que não exigia uma formação específi­ca. Toda essa patriotada não vai tirar o Brasil da lanterna dos rankings internacionais de educação. Quem estuda o assunto sabe que as escolas precisam é de um currículo mais adequado à realidade dos alunos(as), professores(as) mais valorizados(as), gestão mais competente, melhores condi­ções físicas e materiais didáticos.

“É uma manifestação despropositada, um comentá­rio que não serve nem para mesa de bar. O ministro da Educação demonstra que não conhece o povo brasileiro, declarando algo assim, intolerável, despropositado”, criti­cou Margarida Salomão, que já trabalhou com Rodriguez na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde foi reitora. Aliás, foi nessa universidade e no departamento onde Rodriguez lecionou, que cursei a minha graduação em Filosofia na década de 70. Mas ainda bem que não cruzei naquela época com este ministro que, aliás, nunca teve ne­nhuma experiência com gestão pública. No mundo inteiro, aquilo que se entende por educação é um campo conceitual que, ao que parece, também escapa por completo da sua compreensão. Lamentável.

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