Tribuna Ribeirão
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Mudam-se os hábitos

E sempre para pior! Quem viveu uma época em que havia polidez, bons modos, delicadeza, estranha a rápida deteriora­ção dos costumes que acomete a sociedade.

Havia rituais próprios ao ser humano, qualquer fosse ele. A pobreza digna comportava-se como nobre. A verdadeira nobreza é da alma, não do sangue. Por isso não havia distin­ção nas praxes de que se serviam pobres, remediados e ricos para evidenciar sua boa educação de berço.

Exemplo: as pessoas se visitavam. Era agradável conversar sem finalidade específica, tomar um café, saborear uma fatia de bolo e sentir pertencimento. Ou seja: esta é a nossa gente. Com ela me sinto bem.

Mas havia visitas especiais. Por ocasião do nascimento de um bebê. A presença pessoal, o presentinho, os votos de uma feliz trajetória por este “Vale de Lágrimas”. Também quando dos casamentos. Os noivos levavam ambos, em mãos, o con­vite. E os convidados retribuíam com visita pessoal, levando o presente para o jovem casal. Formava-se uma “corbeille”, assim se chamava a exposição das lembranças de parentes e amigos para o início de um novo lar.

Visitas incômodas eram as que se faziam aos enfermos. Mas era o dever da amizade. Observância da lição evangélica “Estive doente, e não me visitaste”. Mais desconfortável ainda, a visita de pêsames.

A família do falecido sabia que, durante as semanas seguintes ao sepultamento, os amigos iriam aparecer para o abraço, para consolar, para mostrar solidariedade. Era de bom tom. Ninguém deixava de fazê-lo.

E hoje? Não se chega em casa de alguém a não ser com um objetivo e mediante prévio aviso. Ninguém tem tempo para “conversa mole”. Os convites de casamento chegam por correio ou e-mail. As redes sociais cuidam de encaminhar os presentes para o endereço que os noivos indicarem. Ou fazer os depósitos na conta-corrente de um deles ou do casal. Os agradecimentos também são eletrônicos.

Não se visita doente. Nem se usa mais visitar a família que perdeu um ente querido. Vai-se, o quando muito, à missa de sétimo dia. Nesta, a pressa faz abraçar o sobrevivente ferido antes mesmo da celebração. Chega a haver empurra-empurra. Isso quando a família continua com algum poder ou prestí­gio. Quando não, a missa conta com os familiares mais próxi­mos, nem todos, porque hoje o sincretismo divide os núcleos em várias confissões ou ausência delas, mais o celebrante.

Triste verificar que o consumismo egoísta impera até mesmo nesses momentos de dor. Triste ouvir de jovens car­reiristas quando sabem de um falecimento: “Era da ativa?”, indagando se ainda pertencente a qualquer quadro privile­giado de carreira jurídica. Quando tomam conhecimento de que é aposentado, faz-se um muxoxo, um levantar de ombros, às vezes seguido de um “já era velho!” ou o genero­so “descansou”.

Mudam-se os tempos. Mudam-se os hábitos. Degrada­ção da espécie ou o apocalipse moral, que sepulta caridade, generosidade, solidariedade, fraternidade e outros “ades” tão presentes no discurso, tão ausentes na prática.

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