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Entra em vigor, tanto quanto sei… imediatamente!

Rodrigo Gasparini Franco *
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Na noite de 9 de novembro de 1989, o mundo testemunhou um dos episódios mais emblemáticos do século XX: a queda do Muro de Berlim. O que parecia impossível até poucos meses antes aconteceu de forma quase acidental, impulsionado por uma frase dita sem convicção, mas com consequências irreversíveis. O muro, símbolo da divisão ideológica, política e física entre o Leste e o Oeste, caiu não por uma decisão planejada, mas por um erro de comunicação que se transformou em um dos momentos mais marcantes da história contemporânea.

A Alemanha Oriental, oficialmente chamada de República Democrática Alemã (RDA), vivia sob intensa pressão. Protestos crescentes tomavam as ruas de cidades como Leipzig, Dresden e Berlim Oriental, enquanto milhares de cidadãos buscavam rotas alternativas para fugir para o Ocidente, aproveitando brechas em países vizinhos do bloco socialista, como a Hungria e a Tchecoslováquia. O governo da RDA, acuado e tentando evitar um colapso total, preparava uma nova legislação para permitir viagens ao exterior, mas o processo seria burocrático e controlado, longe de qualquer abertura imediata. A intenção era aliviar a pressão popular sem, de fato, abrir as fronteiras de maneira irrestrita.

Naquela noite, o porta-voz do Politburo, Günter Schabowski, foi escalado para uma coletiva de imprensa televisionada. Em suas mãos, um memorando com informações sobre as novas regras de viagem, mas sem detalhes claros sobre a data de implementação. Quando um jornalista italiano perguntou quando as novas regras entrariam em vigor, Schabowski, visivelmente confuso, leu o documento e respondeu: “Entra em vigor, tanto quanto sei… imediatamente!” A frase, transmitida ao vivo, ecoou rapidamente por toda Berlim Oriental e se espalhou como fogo em palha seca.

A população, já ansiosa por mudanças e atenta a qualquer sinal de abertura, interpretou a declaração como uma autorização para atravessar imediatamente para o lado ocidental. Em poucas horas, multidões se aglomeraram nos postos de controle do Muro de Berlim, exigindo passagem. Os guardas de fronteira, pegos de surpresa e sem instruções claras de seus superiores, hesitaram. A pressão popular aumentava a cada minuto, e a tensão era palpável. Diante do impasse e temendo um confronto violento, os guardas acabaram cedendo e abriram os portões.

O que se seguiu foi uma explosão de alegria e incredulidade. Famílias separadas há décadas se reencontraram, desconhecidos se abraçaram e a cidade, dividida desde 1961, tornou-se palco de uma celebração espontânea. O concreto do muro, antes intransponível, começou a ser destruído por mãos ansiosas por liberdade. O mundo assistiu, emocionado, àquele momento que simbolizava não apenas a reunificação alemã, mas também o fim de uma era marcada pela Guerra Fria e pela divisão da Europa. O muro, que por tanto tempo representou o medo, a repressão e a separação, foi reduzido a escombros diante da força coletiva de um povo que não aceitava mais viver sob o jugo da opressão.

A queda do Muro de Berlim foi resultado de uma série de fatores: o desgaste do regime socialista, a pressão popular, as mudanças políticas na União Soviética sob Mikhail Gorbachev e, por fim, um erro de comunicação. A frase de Schabowski, dita quase por acaso, tornou-se o estopim para um dos maiores acontecimentos do século. O episódio revela como a história, por vezes, é feita de acasos e decisões inesperadas, e como o desejo de liberdade pode transformar até mesmo um equívoco em um marco de esperança.

Hoje, mais de três décadas depois, a noite de 9 de novembro de 1989 permanece viva na memória coletiva. O muro caiu, mas a lição daquele momento permanece: a força das pessoas, aliada ao poder das palavras, pode mudar o curso da história. E tudo começou com uma frase simples, mas definitiva: “Entra em vigor, tanto quanto sei… imediatamente!”

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

 

 

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