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Organizações criminosas evoluem mais rápido que Estado

O promotor de Justiça Teotônio (com o microfone) destacou que criminosos estão a anos-luz dos investimentos que a Polícia Civil recebe | Foto: Alfredo Risk

Por Adalberto Luque

 

“Eu até costumo dizer que essa associação criminosa estava a anos-luz nos investimentos que a polícia tem no estado de São Paulo. É outra preocupação que a gente tem sim. Não vão gostar de eu falar isso, mas precisa investir na Polícia Civil e precisa ser agora. Não pode ser daqui dois anos, três, precisa ser agora, porque material humano eles têm de sobra – de qualidade, mas não em número. E equipamentos, quase nada. Passou da hora de a gente cobrar os nossos políticos.”

O desabafo do promotor de Justiça em Ribeirão Preto, Paulo José Freire Teotônio, feito durante entrevista coletiva convocada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Polícia Civil para tratar de medidas contra grupos responsáveis por assaltos milionários, dá o tom do atual momento de mudança no perfil da criminalidade.

Nunca antes termos como “crime organizado” e “organização criminosa” foram tão adequados para definir o que antes era representado como “bando”. Os criminosos se profissionalizaram, passaram a atuar em esquema empresarial, com cargos e funções bem definidos, e se aprimoraram ao usar a tecnologia a seu favor.

A fotógrafa Brenda Xavier foi condenada a 24 anos pela morte do namorado, ocorrida cerca de um ano e meio antes do julgamento | Foto: Alfredo Risk

Isso não significa que a cidade tenha se livrado dos furtos e roubos nas ruas. Os chamados “ladrões de galinha” continuam agindo, mas a repressão exercida pelas forças policiais tem conseguido reduzir os índices gerais de criminalidade.

Em 2025, o que se viu foram poucos, porém engenhosos, casos de crimes voltados à obtenção de grandes somas. Os furtos e roubos de celulares apresentaram quedas significativas, resultado, em parte, do projeto Celular Seguro, iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Os dados indicam que o programa contribuiu para uma redução potencial nos índices de roubos e furtos de celulares em nível nacional, com queda de 13,4% no Brasil — um resultado inédito.

Além disso, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) mantém o projeto SP Móbile, coordenado pelo delegado Rodolfo Latif Sebba, ex-integrante da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Ribeirão Preto. Graças à iniciativa, mais de 11 mil celulares foram recuperados apenas nos cinco primeiros meses de atuação.

 

Punição mais rápida

Se em 2023 e 2024 grandes e aparentemente insolúveis homicídios marcaram o noticiário, em 2025 esse cenário começou a mudar. Casos como o do engenheiro Paulo Roberto Carvalho Pena Braga Filho, o Beto Braga, morto no fim de 2023, e do policial militar aposentado Darie Tremura, morto em fevereiro de 2024, exemplificam essa mudança.

No primeiro, mesmo sem pistas concretas iniciais, a Deic identificou e prendeu suspeitos em poucas semanas. As provas reunidas permitiram ao MP oferecer denúncia e ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) condenar os responsáveis em menos de um ano após o crime.

Elizabete Arrabaça é acusada pelas mortes da nora, da filha e de tentar matar uma amiga, além de ser investigada pela morte de uma prima ocorrido em 2016 | Reprodução

No caso do militar aposentado, o desfecho foi semelhante. Um dos suspeitos foi identificado e preso em Londrina (PR). Material biológico coletado em uma camiseta usada por ele quando foi ferido na troca de tiros com as vítimas possibilitou a condenação, mesmo sem confissão.

Em ambos os casos, apesar da desvantagem numérica — e até tecnológica —, a investigação avançou rapidamente, com troca de informações entre Polícia Civil, MP e Judiciário, garantindo celeridade. O resultado demonstra que, embora homicídios ocorram, o esclarecimento e a coleta de provas têm dificultado que os casos se arrastem por anos.

Outro exemplo ocorreu em 21 de outubro, quando a fotógrafa Brenda Caroline Pereira Xavier foi condenada a 24 anos de prisão pela morte do namorado, Carlos Felipe Camargo da Silva, ocorrida em 3 de março do ano passado. Apesar de a defesa informar que irá recorrer, ela foi condenada pouco mais de um ano e meio após o crime.

Situação bem diferente do caso do menino Joaquim, cujo padrasto foi condenado apenas dez anos depois da morte da criança.

 

O crime e a IA

O ano começou com a desarticulação de várias “centrais do golpe”. Em quase todas, constatou-se o uso de Inteligência Artificial (IA) para arquitetar e executar fraudes.

Somente entre fevereiro e maio de 2025, quatro centrais foram desmontadas pela Polícia Civil, com a prisão de mais de uma dezena de golpistas. À primeira vista, o trabalho pode parecer simples, mas não foi.

Como destacou o promotor Teotônio, os investimentos em equipamentos são “quase nada”. Ainda assim, os policiais civis utilizam os recursos disponíveis e conseguem resultados.

Para a presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Ribeirão Preto (Sinpol), Fátima Aparecida Silva, a instituição tem mais de 10 mil vagas em aberto, principalmente para delegados, investigadores e escrivães. “Por mais que o governador diga que tem contratado, a lacuna é imensa. Os policiais seguem fazendo o trabalho de dois e, em algumas cidades, de até três colegas do mesmo cargo”, afirma. Segundo ela, as vagas surgiram por aposentadorias, mortes ou exonerações, sem reposição. “Não foram novos cargos criados”, aponta.

 

Violência em destaque

Em 2025, um caso chamou atenção pela evolução dos fatos. O fazendeiro Alípio João Júnior foi preso em 17 de junho após disparar com uma espingarda de pressão contra o segurança de um shopping na zona Leste.

Solto, voltou a ser notícia semanas depois ao ameaçar moradores do condomínio onde vivia, na rua Garibaldi, no Centro. Entre ameaças, explosão de bombas e denúncias, acabou novamente preso e expulso do condomínio por decisão de assembleia, endossada pela Justiça. A defesa pediu exame de sanidade mental, mas o laudo descartou insanidade.

 

Assassinatos de repercussão

Na região, o caso de maior repercussão foi o do empresário paulistano Nelson Francisco Carreira Filho, de 44 anos, morto em Cravinhos. Ele teria sido assassinado por Marlon Couto Paula Júnior, de 26 anos, que está foragido e confessou o crime em carta enviada à Polícia Civil.

Ao todo, oito pessoas foram indiciadas. Além de Marlon, seu tio, pais, esposa e irmãos também figuram entre os indiciados.

Ainda assim, o crime de maior impacto foi o assassinato da professora de pilates Larissa Talle Leôncio Rodrigues, de 37 anos, ocorrido em 22 de março. As investigações apontaram envenenamento por “chumbinho”.

O marido, o médico Luiz Antônio Garnica, de 38 anos, e a sogra da vítima, Elizabete Eugênio Arrabaça, de 68, foram apontados como responsáveis e devem ir a júri no início de 2026. Elizabete responderá por feminicídio; Garnica, por feminicídio e fraude processual.

No curso das investigações, Elizabete também foi responsabilizada pela morte da filha, Nathalia Garnica, ocorrida em 9 de fevereiro. O caso está no TJSP, que decidirá a competência do julgamento. Nathalia teria sido envenenada, fato constatado após exumação solicitada pelo delegado responsável pela investigação da morte de Larissa.

Na última semana, o delegado Fernando Bravo concluiu o inquérito sobre a tentativa de homicídio de uma amiga da idosa, ocorrida em 2017, e encaminhou o caso ao MP. Também foi instaurado inquérito para apurar a morte de uma prima de Elizabete, em dezembro de 2016, igualmente por envenenamento. Caso haja denúncia, a idosa poderá responder por quatro crimes. Seu filho Garnica é citado apenas na morte de Larissa.

 

Divisor de águas

Um assalto a uma residência no Alto da Boa Vista, às vésperas do réveillon de 2025, pode ser considerado um prenúncio do que viria, embora ainda com métodos tradicionais. Foram levadas joias avaliadas em R$ 4 milhões e US$ 100 mil. Os moradores viajavam e uma funcionária foi rendida.

Nos primeiros dias de 2025, a Polícia Civil prendeu suspeito após investigações feitas a partir de imagens de câmeras de segurança. Entre eles, um empresário e ex-candidato a vereador em Serrana, que teria emprestado o carro usado no crime. Com ele, foram encontrados joias, dinheiro e armas. Ao todo, seis pessoas foram presas, incluindo a funcionária da casa e o marido, detidos no fim de julho.

Júlia foi responsável por alugar o imóvel no prédio do Centro de Ribeirão Preto, onde 10 assaltantes armados, encapuzados ou usando peruca levaram R$ 4 milhões de moradores | Reprodução

No dia 16 de maio, homens armados invadiram uma residência na avenida Costábile Romano, zona Leste de Ribeirão Preto. Eles acessaram a casa pelos fundos, através de um imóvel que estava disponível para locação. Parte do grupo foi ao local durante o dia para avaliar o imóvel que, supostamente, queriam alugar.

Ao voltarem, cortaram cerca e concertina, entrando na casa. Fizeram um casal de idosos, o filho das vítimas e uma funcionária reféns. Agindo com violência, levaram joias e dinheiro. O prejuízo foi de R$ 5 milhões.

Semanas depois, uma das vítimas viu suas joias sendo vendidas num programa de TV, o “Mil e Uma Noites”, veiculado a partir de uma produtora em Curitiba (PR), em rede nacional e também através do YouTube.

Uma das joias era exclusiva. A vítima recomprou e foi até a Deic. O delegado Diógenes Santiago Netto iniciou uma investigação reversa. Esteve em Curitiba, foi informado de que compraram as joias de um joalheiro de Uberaba (MG).

Foram até a cidade mineira e o joalheiro de lá disse ter comprado de um joalheiro de Ribeirão Preto. Então começaram as prisões. No dia 4 de setembro, o joalheiro de Ribeirão Preto foi preso em um condomínio de luxo na zona Sul. Várias prisões ocorreram a partir de então.

No dia 24 de setembro, pelo menos 10 homens fortemente armados, encapuzados ou usando perucas, fizeram um arrastão no Edifício Jatiúca, na rua Campos Salles, Centro da cidade. O prédio tem um apartamento por andar.

Levaram cerca de R$ 4 milhões de pelo menos seis apartamentos, em joias, dinheiros e pix que obrigaram moradores a efetuar. Fugiram em três carros. Em poucas horas, o delegado André Baldochi, da Deic, já sabia que Júlia Moretti de Paula, de 21 anos, havia alugado um apartamento no prédio dias antes. Em poucos dias, 17 suspeitos foram identificados, 14 dos quais presos.

Um deles fez delação premiada e entregou informações importantes. Júlia foi uma das últimas a ser presa, em Araçatuba, a cidade onde sua família mora. As investigações levaram a uma constatação: os dois assaltos foram feitos pelos mesmos criminosos. A Polícia Civil e o MPSP estavam diante de uma muito estruturada organização criminosa.

Os principais integrantes do grupo eram da região da grande São Paulo e litoral. Atuavam em assaltos com criminosos das regiões onde estavam os alvos. Ribeirão Preto era uma espécie de Sucursal da organização.

Bigodini foi suspenso pela Câmara e indiciado pela Polícia Civil após acidente onde, segundo delegado, dirigiu veículo embriagado, apesar de namorada afirmar que era ela quem dirigia o carro | Foto: Polícia Civil/Divulgação

Policiais Civis e MP, no curso nas investigações, descobriram que havia pelo menos outros 13 alvos para que o grupo fizesse assaltos milionários. Entre as funções distintas, um integrante utilizava a plataforma Rainha, usada para avaliar patrimônio das pessoas. Também analisavam redes sociais, buscando informações relevantes dos alvos. Além disso, no caso do Edifício Jatiúca, instalaram câmeras de monitoramento em postes para observar moradores, prestadores e suas rotinas.

Mais: os criminosos usavam um equipamento proibido pela Anatel, que trouxeram do exterior. O mecanismo era capaz de clonar acessos biométricos ou por senha em portões eletrônicos de portarias e garagens. Tudo à distância. E tinha, obviamente, o planejamento. Uma pessoa se encarregava de planejar todos os detalhes necessários para que o assalto desse certo. Usaram mulheres jovens e atraentes – algumas, na verdade, eram acompanhantes de luxo. Elas seriam a fachada necessária para iniciar o plano. Júlia Moretti de Paula foi essa fachada. Alugou o apartamento, se mudou para o prédio dias antes do assalto e, na véspera do crime, entrou com outros quatro assaltantes disfarçados de mulheres, que dormiram no apartamento para iniciar o roubo no dia seguinte pela manhã.

Os integrantes da organização criminosa não contavam que a Polícia Civil, mesmo em desvantagem numérica e de tecnologia, conseguiria realizar um trabalho tão robusto, com apoio da PM, do MP e da Justiça (que autorizou mandados de busca e apreensão e de prisão com celeridade).

Todos os 17 identificados (14 deles presos) do prédio do Centro da cidade, foram denunciados pelo MPSP e se tornaram réus. No outro caso, as prisões prosseguiram. Assaltantes que agiram nos dois casos foram presos. Além disso, o delegado Diógenes Santiago Netto seguiu com as investigações. Prendeu também o joalheiro mineiro. Já o dono do canal “Mil e Uma Noites” teve sua prisão decretada, mas ele não foi encontrado.

É considerado foragido e foi visto em Buenos Aires, no início deste mês. Os integrantes deste grupo devem se tornar réus em breve. Mesmo com as adversidades, a resposta foi rápida e comprometeu a estrutura aparentemente tão bem edificada da organização criminosa. Que em 2026 isso prossiga ocorrendo.

 

Outros casos que tiveram destaque

Nem só de tecnologia viveram as notícias criminais. Em setembro, o carro do vereador afastado Roger Ronan da Silva, o Bigodini (MDB), se envolveu em acidente na avenida do Café e sua namorada disse estar dirigindo o carro. Investigações concluíram que ele dirigia embriagado. Bigodini e a namorada foram indiciados em três crimes cada, pelo delegado Gustavo André Alves, do Setor de Inteligência da Seccional de Ribeirão Preto. A Câmara suspendeu o vereador por seis meses.

Outro ponto de atenção foi a letalidade policial. Considerando o caso do empório no Centro, em que o ladrão morreu após ser baleado pelo filho do comerciante, um PM de folga, 12 pessoas morreram em confrontos com policiais em 2025, seis delas entre 3 de julho e 13 de outubro. Uma das mortes foi de um homem em situação de rua que teria entrado em luta corporal com policiais.

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