Rui Flávio Chúfalo Guião*
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O muro do quintal de minha casa é revestido por um renque das brasileiras helicônias, agora em flor. Suas brácteas vermelhas, que parecem a carapaça de uma lagosta, vão se tornando amarelas na ponta e, delas brota a pequena flor branca, muito apreciadas pelos beija-flores.
Da varanda onde tomamos o café da manhã, vemos as longas inflorescências que caem, formando um conjunto de forte aparência vermelha, que saúda os nosso iniciar do dia.
Plantada num canto do terreno, uma árvore de magnólia amarela, cheia de perfume quando floresce, abriga, além de várias rolinhas-fogo-apagou, um grande vaso de samambaia renda portuguesa, que nos acompanha desde nossa primeira casa.
Ao colocá-lo num dos galhos da árvore, o arame do suporte formou um pequeno poleiro. É nele que se coloca o beija-flor guardião de nossas helicônias.
Parece preto, mas quando voa à luz do sol, verificamos que é verde, azulado iridescente. Voa constantemente, beijando as pequenas flores brancas e retorna célere para seu posto de guarda.
Algumas vezes, aparece outro beija-flor, que espanta rápido, defendendo o território e volta, sobranceiro, à sua posição de sentinela. Também assim age quando o casal de canário-da-terra se empoleira no comedouro de alpiste: espanta-o com um voo rasante.
Os beija-flores são aves tipicamente americanas, encontradas desde o Alasca até a Patagônia, concentrando-se em maior volume na América Central e na do Sul. São mais de 350 espécies que compõem sua família, das quais 90 nativas do Brasil.
É um pássaro pequeno, entre 6 e 13 cm de comprimento, com a incrível capacidade de agitar suas asas 80 vezes por segundo e seu coração bate até 1.200 vezes por minuto (o coração dos humanos bate entre 60 e 100 vezes por minuto).
Pode pairar no ar e mesmo voar para trás, o único pássaro apto a assim fazer.
Alimenta-se basicamente do néctar das flores e para isto tem uma língua longa que funciona como uma bomba capilar.
Complementa sua alimentação com pequenos insetos que lhe fornecem a necessária proteína. Tem a capacidade de enxergar cores que nós não vemos, como a ultravioleta.
Na sua vivência diária, o beija-flor ingere entre 60 e 100% de seu peso corporal em néctar e pequenos insetos.
À noite, cessa sua intensa atividade e o pássaro entra num estado de torpor, que lhe repõe as energias gastas durante o dia.
Devido às suas peculiaridades, o beija-flor é objeto de várias lendas. Os tupis-guaranis acreditavam que ele era mensageiro dos deuses, a quem levava os pedidos dos humanos ao mundo espiritual e, quando um deles se aproximava voando era sinal de que alguém estava pensando em você.
Para os astecas, o pássaro era sagrado e representava o deus Huitzilopochtli, da guerra e do sol e nele se transformavam os guerreiros caídos em batalha. Já os incas atribuíam ao beija-flor o roubo de uma centelha divina, que trouxe o fogo aos humanos.
Um brasileiro, nascido no Espírito Santo, Augusto Ruschi é considerado até hoje a maior autoridade sobre o pássaro. Embora já tenha morrido, Ruschi marcou de tal maneira a pesquisa do beija flor que é hoje considerado o Pai da Espécie. Suas andanças pelas Américas fizeram com que catalogasse as espécies existentes e entendesse a vida destes pássaros.
Foi ele que idealizou a sua alimentação pelas garrafinhas que hoje compramos em supermercados, onde introduzimos açúcar e água, bem como conseguiu reproduzir, em laboratório, não só o estado de torpor que caracteriza a ave ao anoitecer, como obteve sucesso na sua reprodução em cativeiro.
O guardião de nossas helicônias continua firme em seu poleiro, defendendo seu território e nos encantando com seus voos e suas cores.
*Advogado, empresário, Presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos, Secretário-Geral da Academia Ribeirãopretana de Letras.

