A União Europeia aprovou nesta sexta-feira (9), por ampla maioria de seus países-membros, a assinatura do acordo de livre comércio com o Mercosul — formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — encerrando um processo de negociação que se arrastava há mais de 25 anos.
A confirmação foi feita pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que informou, em suas redes sociais, que o Conselho da União Europeia deu o aval político ao tratado. Pelas regras do bloco, eram necessários os votos de pelo menos 15 dos 27 países, que representassem, juntos, no mínimo 65% da população da UE — critério que foi alcançado, apesar da oposição de países como França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia.
Com a aprovação do Conselho, a Comissão Europeia está autorizada a assinar formalmente o acordo com o Mercosul. Ursula informou que pretende viajar ao Paraguai, que exerce a presidência rotativa do bloco sul-americano, para realizar a assinatura nos próximos dias. Para que o tratado entre em vigor, ainda será necessária a ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais dos quatro países do Mercosul.
No Brasil, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo trabalha para que o acordo passe pelo Congresso Nacional ainda no primeiro semestre de 2026. Segundo ele, se o Brasil aprovar rapidamente, o tratado poderá entrar em vigor no país independentemente do ritmo de ratificação nos demais membros do Mercosul.
Alckmin destacou que a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e UE chegou a cerca de US$ 100 bilhões. Apenas a indústria de transformação brasileira exportou US$ 23,6 bilhões para o bloco europeu no ano passado, com crescimento de 5,4%, acima da média global do setor.
De acordo com o governo brasileiro, cerca de 30% das empresas exportadoras do país vendem para a União Europeia — mais de 9 mil companhias, responsáveis por aproximadamente três milhões de empregos.
O acordo prevê a eliminação ou redução progressiva de tarifas sobre produtos industriais e agrícolas. Máquinas, equipamentos, autopeças, motores, geradores de energia, aeronaves, produtos químicos, couro, lâminas e pedras ornamentais estão entre os itens que terão tarifas zeradas ou reduzidas. Para algumas commodities agrícolas, a abertura ocorrerá por meio de cotas com redução gradual de impostos.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que o tratado cria um mercado integrado de cerca de 700 milhões de consumidores, com um PIB combinado de aproximadamente US$ 22 trilhões. Segundo a agência, o acordo pode elevar as exportações brasileiras para a União Europeia em cerca de US$ 7 bilhões.
O empresariado brasileiro reagiu de forma positiva à decisão europeia. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que, em 2024, quando a União Europeia respondeu por 14,3% das exportações brasileiras, cada R$ 1 bilhão exportado ao bloco gerou cerca de 21,8 mil empregos no país, R$ 441,7 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção. Para a entidade, o acordo cria condições para ampliar esse impacto.
Setores como o químico, o eletroeletrônico e o industrial também projetam crescimento das exportações e atração de investimentos, especialmente em áreas ligadas à tecnologia, energia limpa, bioeconomia e cadeias produtivas de maior valor agregado. Federações industriais, como Fiesp, Firjan e Fiemg, avaliam que o tratado ampliará a integração do Brasil ao comércio internacional, embora defendam atenção aos efeitos sobre setores mais sensíveis à concorrência externa.
No agronegócio, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) considera o acordo um avanço estratégico, mas alerta para a necessidade de mecanismos de proteção a cadeias produtivas mais vulneráveis, como a do leite.
Após a assinatura formal e a ratificação pelos parlamentos, o acordo criará a maior área de livre comércio do mundo em termos de PIB combinado, conectando os mercados da União Europeia e do Mercosul em um momento de instabilidade geopolítica e reorganização do comércio global.

