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Bezerra da Silva, política e o desafio do voto consciente

Foto: Arquivo

André Luiz da Silva *
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Todo bom radialista revisa constantemente seus arquivos e prepara com carinho cada programa que leva ao ar. Assim, semanalmente estudo o material que será veiculado no Programa Tudo de Melhor, da Rádio Nova Ribeirão: fatos da semana, história, acervo musical. Foi nesse exercício atento que me deparei com uma data significativa: no dia 17 de janeiro, recordaremos os 21 anos da morte de José Bezerra da Silva, cantor, compositor e músico multi-instrumentista, consagrado nos gêneros do coco e do samba, especialmente o partido-alto.

Bezerra da Silva foi um verdadeiro cronista da vida periférica. Suas músicas frequentemente abordam temas como o uso de drogas e a chamada “malandragem”, mas é fundamental compreender que sua intenção jamais foi a apologia. Pelo contrário: sua obra se constrói como crítica social contundente e denúncia da realidade das favelas, bem como da criminalização histórica de sua população.

Outra marca característica de sua obra é a crítica ao sistema político, à falta de representatividade e à corrupção. Na música Candidato Caô Caô, ele inicia com um alerta direto aos eleitores: “Aí, meu irmão, toma vergonha. Vocês não aprenderam a votar, né?!” A canção apresenta o retrato do candidato que muda o traje, o discurso e os modos ao subir o morro, fingindo adotar os hábitos da população para conquistar votos — da mesma população que, após a eleição, será reprimida pela polícia a seu mando.

O ano de 2026 já começou quente. O mundo discute a ação estadunidense de invasão e captura do presidente da Venezuela. Enquanto o Conselho de Segurança da ONU se reunia para defender os princípios da soberania, da independência política e da integridade territorial dos Estados, por todos os lugares onde circulei observei pessoas se posicionando de forma apaixonada, favoráveis ou contrárias. Agora todos são especialistas em geopolítica.

No cenário nacional, o primeiro grande escândalo do ano foi a revelação de que influenciadores digitais receberam milhões para promover o dono do Banco Master nas redes sociais, por meio de uma complexa teia de contratos sigilosos, pagamentos intermediados por agências de comunicação e estratégias digitais que, além de defender o banqueiro, atacavam o Banco Central. Os influenciadores foram escolhidos criteriosamente, levando em conta o número de seguidores e a facilidade de manipulação de suas audiências.

E isso é apenas o começo: em ano eleitoral, na era digital e da inteligência artificial, certamente seremos bombardeados por notícias falsas de todas as espécies. Agora o candidato nem precisa subir o moro, nem apertar a mão do pobre, pois sua milícia digital faz com que tudo circule pelo WhatsApp, Tik Tok, X, Facebook e outros aplicativos.

Com disputas para a Presidência da República, governos estaduais, Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Distritais, o eleitor tende a buscar candidatos que defendam seus valores — o que não é errado. Mas fica a reflexão: não seria desejável escolher políticos com visões e preocupações mais universais? É preciso sair dos nossos pequenos grupos e bolhas e olhar para o conjunto de brasileiros e brasileiras. Estar atento às promessas e, sobretudo, aos programas de governo é fundamental. Prometer milhões de empregos é fácil; explicar como, com quais ações práticas e em quanto tempo, é bem mais difícil.

Cabe ao eleitor cuidar para não mergulhar nas bolhas extremistas que ampliam a polarização. O estímulo à luta entre os extremos desvia o foco dos reais problemas sociais e econômicos e enfraquece a busca por soluções construtivas. Nesse cenário, aqueles que fogem do debate profundo acabam levando vantagem.

Porque, no fim das contas, a mesma mão que afaga no período eleitoral é a que explora, ignora ou agride durante todo o mandato. Boa sorte, boas escolhas e, como conclui Bezerra da Silva na música que comentamos:
“Não vai votar nesse safado não, hein!”

 

* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

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